Não se perde a fé de um dia para o outro, como quem apaga uma luz, e sim porque, quase sempre, ela se esvai aos poucos, em concessões aparentemente inofensivas, em escolhas que vão anestesiando a consciência espiritual. A Escritura adverte que devemos “vigiar”, pois o maior perigo nem sempre vem de fora, mas do relaxamento interior. Entre tantos riscos que cercam o cristão contemporâneo, três se destacam como especialmente corrosivos.
1. Amizades íntimas com infiéis: influência silenciosa e corrosiva
A convivência social com pessoas de diferentes crenças é inevitável e, em muitos casos, necessária. O próprio Cristo se relacionou com publicanos e pecadores. No entanto, há uma diferença clara entre convivência e aliança íntima.
Amizades profundas moldam valores, linguagem, prioridades e decisões. Quando o cristão estabelece laços íntimos com quem não compartilha da mesma fé e visão espiritual, corre o risco de, pouco a pouco, relativizar suas convicções para preservar a harmonia do relacionamento. A fé deixa de ser o eixo central da vida e passa a ocupar um espaço privado, quase irrelevante.
O perigo não está na discordância explícita, mas na adaptação gradual: silenciar a fé para não parecer “radical”, flexibilizar princípios para não ser visto como “intolerante” e, por fim, perder o senso de identidade espiritual.
2. Aceitação de ideologias marxistas e valores mundanos que relativizam a Bíblia
Outro grande risco enfrentado pelos cristãos hoje é a absorção acrítica de ideologias que reinterpretam a realidade exclusivamente a partir de estruturas econômicas, sociais ou de poder. Quando essas visões passam a ser o filtro principal de leitura do mundo, a Bíblia deixa de ser autoridade final e passa a ser reavaliada, reeditada ou corrigida segundo valores contemporâneos.
Nesse contexto, os mandamentos deixam de ser absolutos e passam a ser considerados produtos culturais de um tempo ultrapassado. O pecado é redefinido como construção social; a verdade se torna relativa; a moral bíblica é vista como opressiva. Assim, a fé cristã é diluída para se ajustar ao espírito da época.
O problema não é a preocupação com justiça social ou dignidade humana — temas profundamente bíblicos —, mas a substituição da revelação divina por ideologias humanas que colocam o homem, e não Deus, no centro da história.
3. Falsos cultos e a idolatria do “eu”
Talvez um dos perigos mais sutis seja a transformação da fé em uma experiência centrada no próprio indivíduo. O culto deixa de ser adoração a Deus e passa a ser um espaço de autoafirmação, bem-estar emocional e realização pessoal.
Nesse cenário, Deus é visto como um meio para alcançar sucesso, prosperidade, autoestima ou felicidade imediata. O arrependimento é substituído pela autoaceitação irrestrita; a cruz dá lugar ao conforto; o discipulado é trocado por motivação. Trata-se de uma idolatria moderna, na qual o “eu” ocupa o trono que pertence somente a Deus.
Falsos cultos não se caracterizam apenas por imagens ou rituais evidentes, mas por uma espiritualidade que rejeita o confronto, a renúncia e a obediência, oferecendo uma fé moldada aos desejos humanos.
Considerações finais
Perder a fé e a salvação não é, na maioria das vezes, um ato de rebeldia explícita, mas um processo de acomodação. Começa com alianças mal discernidas, passa pela aceitação acrítica do espírito do tempo e se consolida na centralidade do próprio “eu”.
O chamado bíblico continua atual: vigilância, fidelidade à verdade revelada e um culto que devolva Deus ao centro. Não para viver com medo, mas para caminhar com lucidez. Afinal, a fé não se perde apenas quando é negada, mas também quando é diluída até deixar de fazer diferença.







