terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O Evangelho e a polarização política!

 


O cenário político contemporâneo tem sido marcado por forte polarização, discursos inflamados e tentativas de reduzir a realidade a dois polos antagônicos: progressistas versus conservadores. Nesse ambiente, muitos cristãos, especialmente no meio evangélico, acabam absorvendo essa lógica binária e, não raro, procuram associar o confronto político-ideológico atual às profecias bíblicas, chegando a identificar tais disputas como uma antecipação direta do Armagedom apocalíptico. Essa leitura, porém, revela sérias incongruências quando confrontada com os ensinos de Jesus e com uma análise mais fiel da verdade bíblica.

Jesus não se alinhou a projetos políticos nem a ideologias nacionais. Viveu em um contexto profundamente politizado e opressivo, sob o domínio romano, onde existiam grupos claramente polarizados: zelotes revolucionários, fariseus legalistas, saduceus alinhados ao poder e herodianos colaboradores do império. Ainda assim, Cristo recusou-se a ser instrumentalizado por qualquer dessas agendas. Sua afirmação — “O meu reino não é deste mundo” (João 18:36) — não foi uma fuga da realidade, mas uma declaração clara de que o Reino de Deus opera em outra lógica, superior e transcendente aos jogos de poder humano.

A posição política do cristão, à luz do evangelho, não pode ser confundida com militância ideológica irrestrita nem com nacionalismos religiosos. Quando setores evangélicos tentam sacralizar projetos políticos específicos, transformando líderes, partidos ou nações em instrumentos diretos da vontade divina, incorrem no risco de idolatria e de distorção das Escrituras. O Armagedom bíblico não é um embate entre correntes políticas modernas, mas o desfecho de um conflito espiritual muito mais profundo, que envolve a fidelidade a Deus em oposição aos sistemas humanos que se levantam contra Sua soberania.

A verdade bíblica suplanta o debate político atual justamente porque não se deixa aprisionar por ele. Enquanto a política opera, em grande parte, por interesses particulares, alianças circunstanciais e narrativas convenientes, a doutrina de Jesus chama à coerência moral, à justiça, à misericórdia e à humildade. O cristão é chamado a ser “sal da terra” e “luz do mundo”, não ecoando slogans ou demonizando adversários, mas testemunhando um caráter moldado pelo evangelho, mesmo em meio a um mundo dividido.

Isso não significa indiferença social ou alienação. O cristão pode e deve exercer sua cidadania com responsabilidade, consciência crítica e compromisso ético. Contudo, sua esperança não está na vitória de um espectro político sobre outro, nem na consolidação de um projeto de poder terreno. A história humana, marcada por ciclos de dominação e queda, caminha para um encerramento que não será decidido nas urnas nem nos parlamentos, mas pela segunda vinda de Jesus.

Em tempos de polarização extrema, a fidelidade a Cristo exige discernimento para não confundir o Reino de Deus com reinos humanos. A missão da igreja não é vencer debates ideológicos, mas anunciar uma verdade que transcende todos eles: o governo final de Deus, justo e eterno, diante do qual todo poder humano, progressista ou conservador, se mostrará limitado e passageiro.

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