terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Como sair da mornidão para o calor espiritual?

 


Apocalipse 3:15–16 é um dos textos mais desconfortáveis do Novo Testamento. Não porque seja difícil de entender, mas porque é difícil de aceitar. Jesus não fala ali com incrédulos declarados, nem com perseguidores da fé, mas com uma igreja organizada, ativa e convencida de que estava bem. Ainda assim, Ele a chama de morna  e afirma que esse estado é mais repulsivo do que estar frio.

O cristão morno não é alguém sem religião. É alguém com religião suficiente para manter a consciência tranquila, mas não o bastante para transformar a vida. Ele ora, lê a Bíblia, frequenta a igreja — porém tudo isso acontece sem risco, sem custo e sem dependência real de Deus. A fé se torna um acessório, não o eixo da existência.

O problema é que a mornidão dificilmente é percebida por quem a vive. Assim como Laodiceia, o cristão morno costuma dizer: “estou rico, estou bem, não me falta nada”. Só que, aos olhos de Cristo, falta tudo o que realmente importa: fervor, zelo, sensibilidade espiritual e sede de eternidade.

A transformação começa quando essa ilusão cai. Não é um momento emocional, mas um despertar honesto. A pessoa percebe que sua fé não a confronta mais, não a incomoda mais e não a move mais. Esse reconhecimento é doloroso, mas absolutamente necessário. Sem ele, qualquer tentativa de mudança será apenas maquiagem espiritual.

A partir daí, a virada não acontece com o simples aumento de atividades religiosas. Ir mais à igreja, ler mais capítulos da Bíblia ou fazer cursos teológicos pode até ocupar a agenda, mas não garante fogo no coração. Laodiceia já tinha tudo isso. O que ela não tinha era custo espiritual.

Jesus é direto ao prescrever o caminho: “compra de mim ouro refinado pelo fogo”. Ouro só se purifica no fogo, e fé só se torna viva quando passa por experiências que quebram a autossuficiência. O cristão começa a esquentar quando decide obedecer de forma prática, mesmo quando isso exige renúncia. Quando escolhe servir em vez de apenas assistir. Quando troca conforto por fidelidade. Quando diz “não” a pecados tolerados e “sim” a mudanças reais.

Outro passo essencial é abandonar a ideia de que espiritualidade se mede por quantidade de informação. Conhecimento bíblico sem obediência não aquece — frequentemente esfria ainda mais. O fogo volta quando a Palavra deixa de ser apenas estudada e passa a ser praticada, mesmo nas pequenas decisões diárias. Ler menos, obedecer mais. Orar menos pedidos e mais rendição.

Também é decisivo colocar-se, de forma intencional, em situações que exigem dependência de Deus. A fé esfria em ambientes totalmente controlados, onde nada nos desafia e nada nos custa. Ela aquece quando somos levados além de nossas forças: ao servir pessoas difíceis, ao testemunhar sem garantia de aceitação, ao assumir responsabilidades maiores do que nossa capacidade. É nesses lugares que o Espírito Santo deixa de ser teoria e se torna realidade.

Por fim, o cristão deixa de ser morno quando volta a viver com os olhos na eternidade. A mornidão é filha do excesso de presente e da ausência de futuro eterno. Quando o céu volta a ser real, o conforto perde poder, o pecado perde charme e a fé ganha urgência.

Ser “quente” não é ser perfeito, nem viver em êxtase espiritual constante. É viver uma fé consciente, intencional e custosa. Uma fé que sangra às vezes, mas que também vive. Uma fé que não se contenta em parecer cristã, mas insiste em ser cristã.

E é exatamente esse tipo de fé que Cristo ainda procura — e ainda convida a reacender

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