Existe uma tendência profundamente humana de enxergar com clareza os defeitos dos outros e, ao mesmo tempo, minimizar ou ignorar as próprias falhas. Julgamos pela aparência, pela cultura, pela condição social, pelas opiniões, pelos erros do passado, pelas limitações pessoais, passando a ver as pessoas como dignas ou indignas de nossa atenção, respeito e amizade. O resultado é a rejeição, a discriminação e a formação de barreiras que afastam uns dos outros.
No entanto, o evangelho apresenta uma realidade completamente diferente. A Bíblia declara que Deus ama o mundo inteiro. Em João 3:16 lemos: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito”. O amor de Deus não foi direcionado apenas aos bons, aos justos ou aos moralmente corretos. Cristo veio para salvar pecadores. Seu amor alcança ricos e pobres, religiosos e irreligiosos, cultos e simples, pessoas admiradas e pessoas desprezadas.
Ao observarmos a vida de Jesus, percebemos que Ele constantemente ultrapassava as barreiras que a sociedade havia construído. Conversou com samaritanos, acolheu publicanos, tocou leprosos, perdoou adúlteros e demonstrou compaixão por aqueles que eram considerados indignos. Cristo não ignorava o pecado, mas amava o pecador. Ele enxergava além das falhas visíveis e contemplava o valor eterno de cada ser humano.
Essa mesma atitude caracterizou a igreja primitiva. Judeus e gentios passaram a adorar juntos. Homens e mulheres encontraram lugar na comunidade cristã. Escravos e livres compartilhavam a mesma mesa. O apóstolo Tiago chegou a condenar explicitamente a acepção de pessoas dentro da igreja (Tiago 2:1-9). Fazer distinção com base na aparência ou posição social era incompatível com o espírito do evangelho.
Entretanto, muitos séculos depois, ainda enfrentamos o mesmo desafio. Por que é tão difícil amar as pessoas como Cristo amou? O que falta para que essa realidade se manifeste plenamente entre os cristãos?
Com certeza a resposta passa por uma consciência de que somos parte do contingente de pecadores que Jesus veio salvar, portanto não sou uma exceção mas mais um indivíduo que também possui falhas e carências. Por outro lado o amor verdadeiro não é um produto natural do coração humano. Nossa natureza caída inclina-se ao egoísmo, à comparação e ao preconceito. Somente o Espírito de Deus pode produzir em nós o fruto do amor que transcende simpatias pessoais e preferências culturais.
A consciência de que sou pecador tanto quanto aos demais e portanto com carências e falhas como as outras pessoas; e fruto da obra do Espirito Santo, causando uma profunda transformação da própria natureza. Quando Cristo habita no coração, os valores mudam, as prioridades mudam e a forma de enxergar as pessoas também muda. Começamos a vê-las não como adversários, concorrentes ou estranhos, mas como filhos e filhas que Deus deseja salvar.
Quando somos verdadeiramente impactados pelo amor de Cristo passamos a olhar os demais com tolerância e aceitação. Paulo escreveu: “Pois o amor de Cristo nos constrange” (II Coríntios 5:14). A palavra “constrange” transmite a ideia de algo que nos domina, nos impulsiona e nos move interiormente. Quando compreendemos a profundidade do amor de Deus por nós como pecadores imperfeitos, torna-se mais difícil negar essa mesma graça aos outros.
Quem reconhece o quanto foi perdoado aprende a perdoar. Quem entende o quanto foi amado aprende a amar. Quem percebe a paciência de Deus consigo mesmo desenvolve paciência para com as fraquezas alheias.
O mundo está cada vez mais dividido por ideologias, classes sociais, etnias, nacionalidades e visões de mundo. Nesse contexto, os seguidores de Cristo são chamados a demonstrar uma realidade diferente: a realidade do Reino de Deus, onde todos os seres humanos possuem valor porque foram criados à imagem do Criador e redimidos pelo sangue de Cristo.
Talvez a pergunta mais importante não seja o que está errado com os outros, mas o que Deus ainda precisa transformar em nós. Somente quando o amor de Cristo ocupar o centro de nossa vida seremos capazes de olhar para os pecadores como Ele os vê: não como pessoas a serem rejeitadas, mas como pessoas que assim como eu precisam da graça divina.












