Num mundo marcado pelo pluralismo religioso, pelo comodismo e por um individualismo cada vez mais acentuado, as palavras de Jesus : “- Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo”; permanecem tão desafiadoras quanto no dia em que foram pronunciadas. Elas não são um elogio acomodador, mas um chamado exigente à responsabilidade, à coerência e ao testemunho.
Ser “sal da terra” implica ter um sabor diferente, uma presença que preserva, transforma e dá sentido. O sal, no tempo de Jesus, não servia apenas para temperar, mas também para conservar e impedir a corrupção. Assim também o cristão é chamado a ser uma presença que impede a deterioração moral e espiritual da sociedade, não por imposição ou moralismo, mas pelo testemunho de uma vida íntegra, justa e compassiva. Em meio a uma cultura que muitas vezes reduz o sentido da vida ao prazer imediato, ao consumo e à satisfação dos desejos carnais, o “sal” do Reino se manifesta na capacidade de viver com propósito, disciplina interior e abertura ao transcendente.
Ser sal, portanto, significa influenciar positivamente o ambiente ao nosso redor: nas relações familiares, no trabalho, na política, na educação, na economia e na cultura. Significa promover a justiça onde há exploração, defender a dignidade humana onde ela é ameaçada, e semear esperança onde reina o desânimo. O sal não faz barulho — age silenciosamente — assim como o bem praticado com humildade transforma corações e estruturas ao longo do tempo.
Mas Jesus também nos chama a ser “luz do mundo”. A luz não existe para si mesma; ela ilumina, revela caminhos, dissipa trevas. Num contexto de confusão moral e espiritual, onde verdades são relativizadas e valores são frequentemente invertidos, ser luz significa viver de tal maneira que nossa própria vida se torne um referencial. Não se trata de perfeição, mas de autenticidade: coerência entre fé e prática, entre o que professamos e o que vivemos.
Ser luz é ter a coragem de testemunhar o bem mesmo quando ele é impopular; é cultivar a verdade quando a mentira parece mais vantajosa; é escolher o amor quando o egoísmo é a norma. É também irradiar alegria e paz, não como negação das dificuldades, mas como fruto de uma esperança enraizada em Deus.
Num mundo plural, ser sal e luz não significa rejeitar quem pensa diferente, mas dialogar com respeito, amar sem discriminar e servir sem esperar reconhecimento. A verdadeira luz atrai, não ofusca; o verdadeiro sal transforma, não agride.
Assim, ao vivermos os valores do Reino: amor, justiça, misericórdia, humildade, fidelidade e serviço; tornamo-nos instrumentos através dos quais Deus continua a agir no mundo. Nossa presença pode tornar a vida mais significativa para aqueles ao nosso redor, inspirando outros a buscar algo maior do que si mesmos.
No fim, ser sal da terra e luz do mundo é assumir que nossa fé não é apenas uma questão privada, mas uma missão pública: fazer com que, ao verem nossas boas obras, as pessoas glorifiquem a Deus e encontrem, através de nós, um vislumbre do Seu amor e da Sua verdade.







