sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Como reavivar a igreja do século XXI

 

Se você tem acompanhado o cenário evangélico brasileiro nas últimas décadas, provavelmente sente uma inquietação: há um crescimento numérico impressionante, mas uma sensação difusa de que algo essencial está se perdendo. Igrejas cheias, mas discípulos rasos. Cultos vibrantes, mas vidas transformadas em ritmo mais lento. Promessas de milagres, mas carências de caráter.

Não é apenas uma impressão subjetiva. Os dados e análises confirmam: estamos diante de um esvaziamento de conteúdo que atravessa denominações. Das históricas às pentecostais, muitas comunidades trocaram a profundidade doutrinária por um pragmatismo que prioriza números sobre transformação. 

Como resultado, um contingente crescente de crentes "desigrejados" - pessoas que mantêm a fé, mas abandonaram a comunidade institucional. O Censo do IBGE nos revela o que nossos círculos de relacionamento já sinalizavam: há fome por autenticidade que não está sendo saciada nos moldes atuais.

Diante deste quadro, surge a pergunta inevitável: como reagir a tal situação ou que rumo tomar para que a igreja ou comunidade de crentes volte a ser viva e fervorosa como em outras épocas? 

 A Centralidade das Escrituras como Norma Crítica

A primeira revolução necessária é uma redescoberta da Bíblia não como instrumento de apoio a projetos humanos, mas como lente crítica sobre nossa própria prática eclesiástica. Isso significa:

  • Pregação expositiva que respeite o texto em seu contexto, em vez de usá-lo como pretexto para ideias preconcebidas

  • Escola bíblica séria que forme crentes capazes de "examinar as Escrituras" (Atos 17:11) por si mesmos

  • Submissão coletiva à autoridade bíblica, inclusive quando ela confronta nossos modelos de "sucesso" ministerial

Quando a Palavra recupera seu lugar central, os critérios de avaliação mudam: não contamos apenas cadeiras ocupadas, mas vidas conformadas à imagem de Cristo.

A Comunidade como Espaço de Cruciformidade

Este talvez seja o ponto mais urgente: recuperar a eclesiologia do Novo Testamento, onde a igreja é primariamente comunidade (koinonia), não evento ou organização. Isso implica:

  • Reduzir o palco e ampliar a mesa - menos espetáculo, mais conversa significativa; menos estrelato pastoral, mais mutualidade

  • Valorizar as relações horizontais - onde "uns aos outros" não seja apenas figura de retórica, mas prática cotidiana

  • Criar espaços para vulnerabilidade - onde máscaras possam cair sem medo de julgamento

  • Restaurar o discipulado relacional - processo lento e paciente, incompatível com produção em massa

É na comunidade autêntica que a "prosperidade" ganha novo significado: não como acumulação individual, mas como suficiência compartilhada. Não como bênção a ser consumida, mas como recurso para servir.

Considerações Finais:

O fenômeno dos desigrejados não é necessariamente negativo - pode ser um grito profético por uma igreja mais autêntica. Mas o individualismo espiritual não é solução; é apenas outra face da mesma moeda que prioriza a experiência privada sobre o corpo coletivo.

A verdadeira renovação será aquela que reconecta a profundidade espiritual com a comunidade institucional. Uma renovação do formato ou uma reinvenção da comunidade cristã onde:

  • A liturgia seja significativa - conectando tradição e contemporaneidade

  • A participação seja substantiva - todos têm dons para contribuir

  • A missão seja integral - evangelismo e justiça social como duas asas da mesma ave

  • A formação seja intencional - discipulado como processo de longo prazo

A profecia da mornidão espiritual (Apoc.3:16) não é sentença de morte, mas diagnóstico amoroso. E todo diagnóstico pressupõe possibilidade de tratamento. O remédio pode ser menos glamouroso do que esperamos: menos eventos espetaculares, mais encontros simples ao redor da Palavra; menos campanhas, mais consistência no discipulado; menos celebridades eclesiásticas, mais irmãos e irmãs caminhando juntos.

Como lembra o teólogo John Stott em "A Missão Cristã no Mundo Moderno", "a igreja cresce em qualidade para crescer em quantidade". A reversão possível exige coragem para priorizar profundidade sobre expansão, discipulado sobre ativismo, e cruciformidade sobre prosperidade. 

A igreja que queremos reavivar talvez precise primeiro morrer para certos modelos que idolatramos, para ressuscitar na simplicidade do primeiro amor. O caminho é estreito, mas é nele que encontraremos não apenas uma igreja reavivada, mas um Evangelho redescoberto - tão antigo quanto as Escrituras, tão novo quanto cada geração que o abraça com autenticidade.

A pergunta que fica não é se há esperança, mas se temos coragem para o caminho da cruz - que passa necessariamente pelo caminho da comunidade.



quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Caso do cão Orelha levanta a questão de como tratamos os animais que comemos

 


O recente caso do cão comunitário Orelha, brutalmente agredido por adolescentes na Praia Brava, em Florianópolis, gerou comoção nacional e reacendeu debates sobre o respeito aos animais. Orelha, conhecido e cuidado pela comunidade local, sofreu ferimentos graves e não resistiu, mesmo após ser socorrido por moradores. As investigações apontaram a participação de adolescentes no crime, resultando em pedidos de internação e indiciamento de adultos por coação de testemunhas .

Esse episódio evidencia a empatia seletiva que muitas vezes direcionamos aos animais. Enquanto a sociedade se mobiliza diante de casos de maus-tratos a cães e gatos, frequentemente negligenciamos o sofrimento de bilhões de animais criados para consumo humano. Esses animais, como bois, porcos e galinhas, são seres sencientes, capazes de sentir dor e medo, mas muitas vezes são submetidos a condições cruéis em fazendas industriais .

A legislação brasileira prevê práticas de abate humanitário, que incluem a insensibilização prévia dos animais para minimizar o sofrimento . No entanto, a implementação dessas práticas nem sempre é eficaz, e muitos animais ainda enfrentam condições degradantes. Organizações como a Animal Equality denunciam as falhas no sistema e promovem campanhas para conscientizar a população sobre o bem-estar animal .

Os dados reforçam a gravidade da situação. Em 2025, o Brasil registrou 4.919 casos de maus-tratos a animais, um aumento de 1.400% em relação a 2021, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) . Isso equivale a uma média de 13 ocorrências por dia . Embora esses números incluam principalmente cães e gatos, eles refletem uma cultura mais ampla de desrespeito à vida animal. Saiba mais <aqui>.

A comoção pelo caso de Orelha deve nos levar a refletir sobre o tratamento que dispensamos a todos os animais. É necessário questionar se nossa empatia está limitada a animais de estimação ou se estamos dispostos a estendê-la a todos os seres sencientes. Adotar uma postura mais coerente em relação aos direitos dos animais implica repensar hábitos de consumo e exigir práticas mais éticas na produção de alimentos.

Educação e conscientização: Informar a população sobre as condições enfrentadas pelos animais de produção pode incentivar escolhas alimentares mais éticas. Incentivo a dietas baseadas em vegetais: Adotar uma alimentação que reduza ou elimine o consumo de produtos de origem animal pode diminuir significativamente a demanda por práticas cruéis.

O caso de Orelha serve como um espelho para nossa sociedade, refletindo a necessidade de uma ética mais abrangente que reconheça o valor de todas as formas de vida. Ao estender nossa compaixão além dos animais de estimação, podemos construir uma cultura que respeite verdadeiramente os direitos e o bem-estar animal. Em suma, o caso de Orelha é um chamado para ampliarmos nossa compaixão e reconsiderarmos a forma como tratamos todos os animais, não apenas aqueles que fazem parte do nosso convívio diário.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Jesus na expressão evangélica – o único que salva

 



Entre as muitas faces pelas quais Jesus de Nazaré tem sido contemplado ao longo da história, poucas figuras foram tão estudadas, interpretadas e debatidas. Há uma expressão histórica de Jesus, que o vê como um personagem do primeiro século, um profeta judeu inserido em seu contexto cultural e político, cuja vida e morte marcaram o curso da civilização ocidental. Há também uma expressão filosófica, que o apresenta como um grande mestre moral, um sábio que ensinou princípios elevados sobre amor, justiça, humildade e perdão. Existe ainda uma expressão social de Jesus, que o destaca como defensor dos pobres, dos marginalizados e dos oprimidos, um inspirador de movimentos de transformação ética e humanitária.

Todas essas leituras reconhecem algo valioso em Cristo. Elas veem nele bondade, coerência, sabedoria e compaixão. Contudo, por mais nobres que sejam, essas perspectivas permanecem incompletas. Elas admiram Jesus, mas não necessariamente o reconhecem como aquele que pode redimir a vida, dar novo significado à existência, trazer esperança eterna e produzir um verdadeiro renascimento espiritual.

É precisamente aqui que se destaca a expressão evangélica de Jesus. No testemunho das Escrituras, Ele não é apenas um exemplo, um líder espiritual ou um reformador moral — Ele é o único Salvador. O apóstolo João é categórico: “Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida” (1 João 5:12). O próprio Cristo declara: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14:6). Na perspectiva do evangelho, Jesus não é uma entre muitas vias de sentido ou transcendência; Ele é a própria porta da salvação.

Essa afirmação inevitavelmente se choca com outras visões contemporâneas sobre Jesus — religiosas, espirituais ou seculares — que o apreciam, mas relativizam sua singularidade. Para muitos, Ele é um símbolo inspirador, mas não o Senhor vivo que transforma corações. Essa tensão sempre existiu, mas torna-se ainda mais aguda em uma era pluralista, onde a ideia de verdade exclusiva é frequentemente rejeitada.

Paralelamente a isso, a própria Bíblia adverte sobre um fenômeno interno ao cristianismo: a existência de cristãos mornos. São aqueles que, talvez influenciados por outras tradições, filosofias ou pelo espírito do tempo, perderam o fervor do evangelho. Eles ainda se identificam como cristãos, frequentam igrejas e falam de Jesus, mas já não ardem em paixão por Ele. Para muitos, o cristianismo tornou-se mais uma fonte de apoio emocional, social ou até financeiro, do que uma entrega radical ao Senhorio de Cristo. A fé, nesses casos, adapta-se ao conforto do “presente século” em vez de confrontá-lo.

Contra essa acomodação, ressoa o chamado bíblico ao despertar do primeiro amor — a fé viva, vibrante e primitiva que caracterizou os primeiros discípulos. A Escritura fala de um remanescente fiel nos últimos dias, um povo que não se conforma com a mediocridade espiritual, mas busca uma experiência profunda e genuína com Deus.

Vivemos, segundo a perspectiva bíblica, no limiar do maior acontecimento desde a Criação: a volta de Jesus em glória. Diante dessa realidade, a Palavra convoca: “Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará” (Efésios 5:14). Não é um chamado ao medo, mas à vigilância, à renovação e à esperança.

Assim, a expressão evangélica de Jesus permanece decisiva. Nela, Ele não é apenas admirado — Ele é recebido como Salvador, seguido como Senhor e aguardado como Rei. E é nesse encontro transformador com Cristo que a igreja é chamada a despertar, reavivar sua fé e preparar-se para encontrá-lo face a face.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Iemanjá = Nossa Senhora dos Navegantes -> Sincretismo religioso no contexto brasileiro!


 

No Brasil há um exemplo claro da dinâmica sincretista religiosa que cumpre a profecia bíblica para o tempo do fim. No contexto brasileiro o sincretismo mais evidente está entre religiões de matriz africana e o catolicismo popular. A figura de Iemanjá na Umbanda e no Candomblé foi historicamente associada a Nossa Senhora dos Navegantes no catolicismo. Embora culturalmente compreensível dentro do contexto de resistência dos povos africanos escravizados, teologicamente essa fusão representa exatamente o tipo de mistura que o Apocalipse critica: duas concepções distintas de divindade e mediação espiritual são tratadas como equivalentes.

Para as Escrituras, essa amalgamação é espúria porque confunde a adoração ao Deus revelado na Bíblia com práticas espirituais baseadas em cosmovisões diferentes, frequentemente ligadas a cultos à natureza, ancestrais ou entidades espirituais que não se harmonizam com o monoteísmo bíblico nem com a centralidade de Cristo como único mediador (1Tm 2:5).

Raízes Históricas: A Apostasia Medieval

Este sincretismo não é fenômeno recente. Suas raízes remontam à grande apostasia que se instalou na igreja durante a Idade Média, quando ocorreu uma progressiva assimilação de elementos pagãos ao cristianismo:

1.     Sincretismo Festivo: A cristianização de festividades pagãs, como o Natal, que assimilou elementos da festividade romana do Sol Invicto (25 de dezembro), ou a Páscoa, que incorporou elementos de celebrações da fertilidade.

2.     Sincretismo Iconográfico: A adaptação de divindades pagãs como "santos" cristãos - um processo evidente na evangelização de povos europeus, onde divindades locais eram reconvertidas em figuras do santoral católico.

3.     Sincretismo Doutrinário: A incorporação de conceitos filosóficos gregos (como o neoplatonismo) na teologia cristã, e práticas espirituais de mistérios helenísticos nos ritos eclesiásticos.

4.     Sincretismo Cosmológico: A assimilação de hierarquias angélicas de origens diversas, criando uma complexa angelologia que mistura elementos bíblicos com tradições extrabíblicas.

O Chamado para o Tempo do Fim

A imagem de Babilônia no Apocalipse não se refere apenas a um sistema político ou econômico, mas principalmente a um sistema religioso universalista que absorve e sintetiza diferentes crenças. O anjo proclama: "Caiu, caiu a grande Babilônia e se tornou morada de demônios, guarida de todo espírito imundo" (Apocalipse 18:2). Esta descrição revela a natureza espiritual por trás do sincretismo: uma confluência de influências espirituais contrárias aos princípios do evangelho puro.

Para o povo remanescente fiel nos últimos dias, a ordem "sai dela" não é apenas uma recomendação, mas uma urgência escatológica. Trata-se de:

1.     Separar-se doutrinariamente de sistemas que misturam verdades bíblicas com elementos estranhos.

2.     Discernir espiritualmente as origens das práticas e crenças, testando-as à luz das Escrituras (1 João 4:1).

3.     Manter a pureza do culto, rejeitando adaptações sincréticas que possam comprometer a adoração ao Deus único revelado em Jesus Cristo.

4.     Proclamar a mensagem dos três anjos de Apocalipse 14, que inclui o chamado para temer a Deus e dar-Lhe glória, em contraste com o sistema de Babilônia.

O chamado final

O chamado divino convoca os fiéis a discernirem entre tradição e verdade bíblica, entre espiritualidade genuína e sincretismo, entre adoração centrada em Cristo e práticas espirituais misturadas. No tempo do fim, o povo remanescente é chamado a restaurar a pureza da fé, rejeitando as correntes religiosas que relativizam a Escritura e abraçam uma espiritualidade pluralista incompatível com o evangelho.

Assim, o confronto do Apocalipse com Babilônia não é apenas uma crítica, mas um chamado urgente dos seus filhos à verdadeira adoração: Deus busca um povo que O adore “em espírito e em verdade” (Jo 4:24), livre das misturas que obscurecem Sua Palavra e Seu caráter.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Controle sua Dopamina - ela pode estar "Roubando" sua Vida!


 

Você já teve a sensação de que sabe exatamente o que precisa fazer: ler um livro, treinar ou focar em um projeto; mas, na hora de agir, seu cérebro parece "travar"? Esse fenômeno não é apenas procrastinação; é um sequestro biológico causado pela abundância dopaminérgica. O mundo moderno foi desenhado para "hackear" nosso sistema de recompensa.

O Mecanismo Biológico: A Balança Prazer-Dor

A dopamina não é o neurotransmissor do prazer em si, mas sim o da antecipação e busca. Segundo a Dra. Anna Lembke, psiquiatra da Universidade de Stanford e autora de Nação Dopamina (uma das fontes centrais desta discussão), nosso cérebro funciona como uma balança.

 Existe um principio chamado Princípio do Processo Oponente (opponent-process theory), o qual indica que um estímulo intenso gera uma reação. O cérebro, para manter estabilidade (homeostase), gera uma resposta oposta compensatória. 

Exemplos clássicos:

  • Drogas → euforia → depois ansiedade / disforia

  • Açúcar → pico → queda

  • Estímulos digitais → excitação → apatia / tédio

 Quando buscamos estímulos rápidos — como o scroll infinito das redes sociais ou vídeos curtos — jogamos um peso enorme no lado do prazer. É por isso que, após um longo período de estímulo digital, você não se sente relaxado, mas sim ansioso, irritado e com um profundo sentimento de vazio.

O Impacto na Vida Espiritual e Interior

A espiritualidade e a saúde mental dependem da nossa capacidade de introspecção. No entanto, o excesso de estímulos artificiais destrói o "espaço sagrado" do silêncio.

  • A Fuga do Eu: Quando a balança pende para o lado da dor (o downside dopaminérgico), sentimos um desconforto existencial. Em vez de processarmos esse sentimento, recorremos a mais dopamina barata para "anestesiar" a dor.

  • Perda de Presença: Como aponta o neurocientista Andrew Huberman, a dopamina foca o nosso olhar no "lá e então" (o próximo vídeo, a próxima curtida), impedindo-nos de vivenciar o "aqui e agora", essencial para a oração, meditação e conexão espiritual.

A Erosão das Relações e dos Bons Hábitos

O vício em recompensas instantâneas cria o que se chama de dessensibilização dos receptores. Atividades que exigem esforço e oferecem recompensa tardia começam a parecer insuportáveis:

  • Relações Reais: Exigem presença, escuta e vulnerabilidade — processos lentos que liberam oxitocina. Perto da descarga elétrica de um vídeo viral, a interação humana parece "tediosa".

  • Exercícios e Leitura: São fontes de dopamina de base estável. Ao contrário da dopamina digital, elas fortalecem a resiliência. Porém, para um cérebro viciado, a "fricção" para iniciar essas tarefas torna-se uma barreira quase intransponível.

O Caminho de Volta: O Protocolo de Desintoxicação

O objetivo de um "detox" não é eliminar a dopamina, mas sim recalibrar o nível de base. O protocolo sugerido envolve períodos de abstinência de estímulos "hiper-reais" (como telas e alimentos ultraprocessados) por 7 a 14 dias.

Ao permitir que a "balança" se estabilize, você recupera a capacidade de sentir prazer no comum: no sabor da comida simples, na profundidade de uma conversa e na paz do silêncio.


Fontes de Referência:

  • Cooke, Pedro. O Protocolo Completo de Desintoxicação de Dopamina. YouTube, 2026.

  • Lembke, Anna. Nação Dopamina: Encontre o equilíbrio na era da indulgência. Rio de Janeiro: Vestígio, 2021.

  • Huberman, Andrew. Controlling Your Dopamine For Motivation, Focus & Satisfaction. Huberman Lab Podcast.

  • Sepah, Cameron. The Dopamine Fast 2.0. (Conceito original de jejum de estímulos).





quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O despertar do Peregrino


 

A obra clássica O Peregrino, de John Bunyan, atravessa os séculos como um espelho espiritual no qual cada cristão pode se enxergar. Nela, o personagem principal, chamado Cristão, representa todo aquele que, em algum momento da vida, desperta para a realidade do pecado, da salvação e da necessidade urgente de caminhar em direção ao Reino de Deus. Esse despertar não é confortável, nem simples — é profundo, inquietante e transformador.

Cristão vive inicialmente na “Cidade da Destruição”, símbolo de um mundo afastado de Deus, guiado por valores contrários à verdade divina. Ao perceber o peso que carrega nas costas — imagem clara da culpa e do pecado — ele entende que não pode continuar vivendo como antes. Esse é o ponto crucial do despertar: quando o indivíduo reconhece que a vida que levava, embora aparentemente normal ou aceitável, o conduz à perdição. Assim como Cristão, o cristão dos nossos dias vive cercado por distrações, prazeres imediatos, relativização do pecado e ideologias que negam ou distorcem a verdade bíblica. O mundo moderno, com sua velocidade, entretenimento constante e falsas promessas de felicidade, muitas vezes anestesia a consciência espiritual e tira o foco da realidade celestial.

A decisão de Cristão de abandonar a antiga vida e iniciar sua peregrinação espiritual representa uma ruptura necessária. Seguir a Cristo nunca foi um caminho de comodidade. Pelo contrário, é um percurso marcado por renúncia, escolhas difíceis e oposição. Ao longo da jornada, Cristão enfrenta pântanos, vales sombrios, prisões e inimigos disfarçados de amigos. Essas armadilhas simbolizam os desafios enfrentados pelo cristão hoje: falsos mestres que pregam um evangelho diluído, ideologias que exaltam o “eu” acima de Deus, credos e doutrinas que parecem atraentes, mas que desviam da verdade das Escrituras. São instrumentos sutis que, se não discernidos, conduzem à perdição.

Uma das grandes lições do percurso de Cristão é que o perigo nem sempre se apresenta de forma evidente. Muitas ciladas surgem como atalhos, soluções rápidas ou discursos aparentemente piedosos. Bunyan mostra que nem todo caminho que parece mais fácil vem de Deus. Da mesma forma, o cristão contemporâneo precisa exercer vigilância espiritual, examinando tudo à luz da Palavra, e não apenas pelas emoções, tendências culturais ou popularidade de determinadas ideias.

Outro ensinamento fundamental é a perseverança. Cristão tropeça, cai, erra e, em alguns momentos, quase desiste. No entanto, ele se levanta, se arrepende e continua caminhando. Isso revela que a vida cristã não é marcada pela perfeição, mas pela constância. Permanecer firme até o fim exige dependência de Deus, comunhão, oração e fidelidade à verdade, mesmo quando o caminho é solitário ou doloroso.

Por fim, O Peregrino nos lembra que o destino final vale cada sacrifício. Cristão não perde de vista a Cidade Celestial, e é essa esperança que o sustenta. Em um mundo cada vez mais avesso aos valores do Reino de Deus, o despertar do peregrino hoje passa por recuperar essa visão eterna. Manter os olhos no que é eterno, resistir às distrações passageiras e permanecer fiel, mesmo diante das armadilhas do caminho, é o chamado de todo cristão que decidiu despertar e peregrinar até o fim.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Como sair da mornidão para o calor espiritual?

 


Apocalipse 3:15–16 é um dos textos mais desconfortáveis do Novo Testamento. Não porque seja difícil de entender, mas porque é difícil de aceitar. Jesus não fala ali com incrédulos declarados, nem com perseguidores da fé, mas com uma igreja organizada, ativa e convencida de que estava bem. Ainda assim, Ele a chama de morna  e afirma que esse estado é mais repulsivo do que estar frio.

O cristão morno não é alguém sem religião. É alguém com religião suficiente para manter a consciência tranquila, mas não o bastante para transformar a vida. Ele ora, lê a Bíblia, frequenta a igreja — porém tudo isso acontece sem risco, sem custo e sem dependência real de Deus. A fé se torna um acessório, não o eixo da existência.

O problema é que a mornidão dificilmente é percebida por quem a vive. Assim como Laodiceia, o cristão morno costuma dizer: “estou rico, estou bem, não me falta nada”. Só que, aos olhos de Cristo, falta tudo o que realmente importa: fervor, zelo, sensibilidade espiritual e sede de eternidade.

A transformação começa quando essa ilusão cai. Não é um momento emocional, mas um despertar honesto. A pessoa percebe que sua fé não a confronta mais, não a incomoda mais e não a move mais. Esse reconhecimento é doloroso, mas absolutamente necessário. Sem ele, qualquer tentativa de mudança será apenas maquiagem espiritual.

A partir daí, a virada não acontece com o simples aumento de atividades religiosas. Ir mais à igreja, ler mais capítulos da Bíblia ou fazer cursos teológicos pode até ocupar a agenda, mas não garante fogo no coração. Laodiceia já tinha tudo isso. O que ela não tinha era custo espiritual.

Jesus é direto ao prescrever o caminho: “compra de mim ouro refinado pelo fogo”. Ouro só se purifica no fogo, e fé só se torna viva quando passa por experiências que quebram a autossuficiência. O cristão começa a esquentar quando decide obedecer de forma prática, mesmo quando isso exige renúncia. Quando escolhe servir em vez de apenas assistir. Quando troca conforto por fidelidade. Quando diz “não” a pecados tolerados e “sim” a mudanças reais.

Outro passo essencial é abandonar a ideia de que espiritualidade se mede por quantidade de informação. Conhecimento bíblico sem obediência não aquece — frequentemente esfria ainda mais. O fogo volta quando a Palavra deixa de ser apenas estudada e passa a ser praticada, mesmo nas pequenas decisões diárias. Ler menos, obedecer mais. Orar menos pedidos e mais rendição.

Também é decisivo colocar-se, de forma intencional, em situações que exigem dependência de Deus. A fé esfria em ambientes totalmente controlados, onde nada nos desafia e nada nos custa. Ela aquece quando somos levados além de nossas forças: ao servir pessoas difíceis, ao testemunhar sem garantia de aceitação, ao assumir responsabilidades maiores do que nossa capacidade. É nesses lugares que o Espírito Santo deixa de ser teoria e se torna realidade.

Por fim, o cristão deixa de ser morno quando volta a viver com os olhos na eternidade. A mornidão é filha do excesso de presente e da ausência de futuro eterno. Quando o céu volta a ser real, o conforto perde poder, o pecado perde charme e a fé ganha urgência.

Ser “quente” não é ser perfeito, nem viver em êxtase espiritual constante. É viver uma fé consciente, intencional e custosa. Uma fé que sangra às vezes, mas que também vive. Uma fé que não se contenta em parecer cristã, mas insiste em ser cristã.

E é exatamente esse tipo de fé que Cristo ainda procura — e ainda convida a reacender

Documentário: A natureza após o Dilúvio | Ep. 12 | ORIGENS

 


segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A Soberania de Deus e o Mal no mundo

 


A concepção determinista segundo a qual Deus determina absolutamente tudo o que ocorre,  tanto o bem quanto o mal, é bastante comum em alguns círculos cristãos. Nessa visão, tragédias, doenças, violências e sofrimentos seriam sempre expressão direta da vontade divina ou parte de um propósito secreto e imutável de Deus para a vida de cada pessoa. No entanto, quando analisamos o testemunho bíblico de forma mais ampla, especialmente à luz do tema do grande conflito entre o bem e o mal, essa interpretação se mostra limitada e, em muitos aspectos, inconsistente com o caráter de Deus revelado nas Escrituras.

A Bíblia apresenta Deus como soberano, mas essa soberania não se expressa por meio de um determinismo absoluto. Pelo contrário, Deus escolheu criar seres livres, capazes de amar, obedecer ou rebelar-se. Essa liberdade implica riscos reais. Desde a origem do mal com Lúcifer (Is 14:12–15; Ez 28:12–17), fica claro que Deus não é o autor do mal, nem o desejou. A rebelião angelical não foi um ato deliberado de Deus, mas o resultado do mau uso da liberdade concedida. Se atribuirmos a Deus cada mal que Ele permite, seríamos forçados a concluir que a própria rebelião de Satanás foi planejada por Ele — algo que contradiz frontalmente textos como Tiago 1:13–17, que afirmam que Deus não tenta ninguém para o mal.

A distinção bíblica entre vontade permissiva e vontade ideal de Deus é essencial nesse debate. Um exemplo clássico é o pedido de Israel por um rei. Em 1 Samuel 8, o povo insiste em ter um monarca “como todas as nações”. Deus deixa claro a Samuel que esse pedido não era do Seu agrado, pois representava a rejeição de Sua liderança direta (1Sm 8:7). Ainda assim, Deus permite que Israel tenha um rei, advertindo-os das consequências. Esse episódio demonstra que nem tudo o que Deus permite corresponde ao que Ele deseja ou aprova.

Esse princípio se aplica também ao sofrimento humano. A Bíblia não ensina que Deus deseje doenças, tragédias ou mortes prematuras para cumprir propósitos ocultos. Pelo contrário, Jesus revelou um Deus que cura, restaura e se compadece. Quando confrontado com a ideia de que uma tragédia específica era resultado direto do pecado individual, Cristo rejeitou essa lógica simplista (Lc 13:1–5; Jo 9:1–3). O mundo caído está sujeito a forças diversas: a ação de Satanás (Jo 10:10; 1Pe 5:8), o livre-arbítrio humano (Dt 30:19; Gl 6:7) e até elementos de contingência e acaso (“tempo e acaso sobrevêm a todos”, Ec 9:11).

Isso não significa que Deus esteja ausente ou impotente diante do mal. Muitas vezes, Ele limita, neutraliza ou reverte os efeitos da ação maligna. No episódio de Balaão, por exemplo, Deus não desejava amaldiçoar Israel, e transformou a intenção perversa em bênção (Nm 22–24; Nm 23:8,20). Em outras situações, Deus converte tragédias em oportunidades de revelação de Sua glória, como na ressurreição de Lázaro (Jo 11) ou da filha de Jairo (Mc 5:35–43). Contudo, isso não implica que fosse Seu propósito original que essas pessoas morressem ou sofressem; antes, Ele age dentro da realidade do mal para produzir redenção.

É verdade que a Bíblia também apresenta momentos em que Deus intervém trazendo juízo e destruição, como no dilúvio (Gn 6–9), em Sodoma e Gomorra (Gn 19) ou nas pragas do Egito (Êx 7–12). Esses eventos, porém, são retratados como atos excepcionais de juízo diante de uma corrupção extrema e persistente, e não como o modo normal de Deus agir no mundo. Mesmo nesses casos, a Escritura ressalta a paciência divina e o desejo de arrependimento antes da execução do juízo (Gn 6:3; Ez 18:23; 2Pe 3:9).

Assim, a Bíblia apresenta um dinamismo de fatores atuando na história: a soberania de Deus, a liberdade humana, a atuação de Satanás e as consequências naturais de um mundo caído. Deus continua soberano, mas Ele condiciona o exercício dessa soberania para preservar a liberdade moral necessária à existência do amor e à resolução do grande conflito. Como afirma Ellen G. White em harmonia com esse ensino bíblico, “Deus nunca força a vontade ou a consciência”.

Portanto, não podemos afirmar que toda dor, enfermidade ou tragédia seja a realização direta da vontade de Deus. Muitas coisas Ele permite sem aprovar; outras Ele impede; e, em todos os casos, Ele trabalha para redimir, restaurar e, por fim, erradicar definitivamente o mal (Ap 21:4). Essa compreensão preserva tanto a soberania divina quanto o Seu caráter de amor, justiça e bondade, revelado plenamente em Jesus Cristo.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Considerações sobre a besta do Apocalipse e o fim dos tempos

 



Muitos veem a besta do Apocalipse tendo uma expressão aberta contra Cristo. Mas o caráter dela é definido pela palavra grega anti, que não significa apenas "contra", mas também "aquele que usurpa o lugar de". A besta pode ser ilustrada por como um "fã patológico" que odeia o mestre, mas imita seus trejeitos para tomar o seu lugar.

Na Bíblia encontramos uma  "contrafação do poder de Cristo" pela besta ou anticristo em diversos pontos:

  • A aparência: Enquanto Cristo é o Cordeiro que foi morto e reviveu, a besta surge com uma aparência de cordeiro, mas fala como dragão (Apoc. 5:12-14; 13:11).

  • A ferida mortal: Assim como Cristo ressuscitou, a besta tem uma cabeça degolada que parece reviver, imitando o milagre da ressurreição (Apoc. 13:3).

  • A origem: O Anticristo surge de dentro do seio do cristianismo (apostasia), apresentando-se como uma alternativa religiosa e moral (II Tes. 2:3-4).

A Paz como Instrumento de Engano

O grande perigo do fim dos tempos é o engano espiritual. A besta não se apresentará como um monstro horrendo que todos repudiarão, mas como uma figura capaz de trazer ordem e paz a um mundo em colapso. Por isso, a vigilância sugerida por Cristo não é um chamado ao medo, mas um convite à profundidade espiritual para não sermos confundidos por uma imitação que, embora pareça o verdadeiro "Cordeiro", possui a voz e as intenções do dragão.

Um ponto crucial e frequentemente ignorado é que o cenário final do mundo pode não ser de caos bélico total, mas de uma paz pacificada e unificada pelo Anticristo. Enquanto a compreensão popular foca nas guerras como o sinal do fim, o texto bíblico sugere que o Anticristo surgirá como um "salvador da pátria", propondo um projeto para evitar uma destruição planetária completa.

Essa paz, ainda que paliativa e baseada em um controle rígido (como a impossibilidade de comprar ou vender sem a marca da besta), fará com que o mundo se "maravilhe". É sob esse manto de estabilidade e segurança que a humanidade será levada ao engano, acreditando ter encontrado a solução para seus maiores conflitos.

Nesta perspectiva, o Armagedom deve ser entendido não como um confronto bélico ou militar clássico, mas como um conflito moral e espiritual definitivo. O discernimento será a ferramenta principal, pois a batalha central gira em torno da adoração e da identidade: o selo de Deus contra a marca da besta. Não se trata apenas de quem tem o maior exército, mas de quem detém a verdade no coração.


Quanto falta para o fim?

Guerras e rumores de guerras sempre estiveram presentes na história da humanidade. Mas o que se sobressai nos tempos atuais é o aspecto global. Historicamente, grandes conflitos como a Primeira e a Segunda Guerra Mundial foram eventos majoritariamente eurocêntricos. Mas agora com os conflitos atuais e a possibilidade de uma terceira guerra mundial, as consequências e a escala do conflito serão de fato globais. 

Pela primeira vez na história, vivemos em um mundo onde uma crise pode afetar simultaneamente cada indivíduo no planeta, independentemente de sua fé, ideologia ou localização geográfica. A última pandemia  é um exemplo claro de fatos com abrangência global, onde todos, sem exceção, foram submetidos às mesmas regras e desafios. Assim as guerras atuais e as crises econômicas decorrentes delas afetam o contexto global e não meramente o local ou regional, como foram a maioria das guerras do passado apresentadas nos registros históricos. 

Condizente a isto os fatos referentes ao tempo do fim, registrados no Apocalipse, apontam para algo literalmente universal (Apoc. 13:12,14). Dentro deste contexto surge outra questão consequente, o Senhor Jesus virá também porque o mundo não aguentaria muito tempo - certamente seria destruído pelo próprio homem, pela escala dos conflitos e crises decorrentes.