quarta-feira, 6 de maio de 2026

O que me falta ainda?

 



A pergunta do jovem rico ecoa através dos séculos com uma força inquietante: “O que me falta ainda?” (Mateus 19). À primeira vista, ele parecia ter tudo  moral, disciplina, religiosidade, zelo. Guardava os mandamentos, vivia de forma correta e buscava sinceramente a vida eterna. Ainda assim, havia um vazio, uma percepção silenciosa de que algo essencial estava ausente.

Essa mesma pergunta continua a ressoar no coração de muitos cristãos hoje.

Vivemos uma fé que, por vezes, se limita ao cumprimento de deveres. Frequentamos cultos, seguimos tradições, defendemos doutrinas, mantemos uma aparência de fidelidade. Mas, assim como aquele jovem, podemos estar diante de Deus com uma vida aparentemente irrepreensível  e ainda assim incompleta. Isso revela uma verdade profunda: a obediência, quando reduzida à obrigação, não satisfaz o propósito divino.

A resposta de Jesus ao jovem rico não foi sobre fazer mais, mas sobre entregar mais. Não se tratava apenas de cumprir mandamentos, mas de reorganizar o coração. As riquezas daquele jovem não eram apenas bens materiais  eram o centro de sua segurança, sua identidade, seu afeto. Ao pedir que ele as deixasse, Jesus estava, na verdade, tocando naquilo que ocupava o lugar que deveria pertencer a Deus.

Aqui está o ponto crucial: o que nos falta, muitas vezes, não é mais esforço religioso, mas um amor verdadeiro.

Quando Jesus perguntou a Pedro repetidamente: “Amas-me?”, Ele não estava buscando informação, mas transformação. Pedro já havia demonstrado zelo, coragem e até impulsividade em sua caminhada. Mas Jesus sabia que somente o amor sustentaria uma fé autêntica e duradoura. O amor seria o fundamento do seu ministério, da sua perseverança e da sua fidelidade.

O apóstolo Paulo reforça essa mesma verdade de maneira contundente: ainda que alguém possua fé extraordinária, capaz de mover montanhas, sem amor  nada é. Isso desmonta qualquer ilusão de que práticas externas ou dons espirituais possam substituir a essência da vida cristã. Sem amor, tudo se torna vazio, mecânico e sem valor diante de Deus.

E que amor é esse?

Não é um sentimento passageiro ou uma emoção superficial. É um princípio que governa a vida. É uma convicção tão profunda que leva alguém a sacrificar-se pelo que considera mais importante. É o que move um pai a lutar por sua família, uma pessoa a permanecer fiel em meio à adversidade, um cristão a escolher Deus acima de tudo  inclusive de si mesmo.

Talvez o maior desafio dos cristãos hoje esteja exatamente aqui. Vivemos em uma geração marcada pelo egocentrismo, pela busca incessante de prazer, pelo conforto elevado à categoria de prioridade máxima. O “eu” tornou-se o centro, e tudo gira em torno da satisfação pessoal. Nesse contexto, amar a Deus acima de todas as coisas exige ruptura. Exige renúncia. Exige coragem.

Assim como o jovem rico precisava abandonar suas riquezas, muitos hoje precisam abandonar seus próprios “deuses”: o comodismo, a vaidade, o prazer desenfreado, a autossuficiência. Não porque Deus deseja privar, mas porque Ele deseja ocupar o lugar que é Seu por direito  o centro do coração humano.

A pergunta permanece: o que me falta ainda?

Talvez a resposta não esteja em fazer mais, mas em amar mais. Amar de forma real, prática, sacrificial. Amar a Deus não apenas com palavras ou hábitos religiosos, mas com a vida inteira.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

O cenário evangélico atual

 



O cenário religioso brasileiro vive uma transição histórica. Se as projeções se confirmarem, em 2032 o Brasil deixará de ser uma nação de maioria católica para se tornar majoritariamente evangélica. Mas esse "novo rosto" do Brasil não é um bloco único; é um mosaico complexo de crenças, sotaques e interpretações.

O Perfil do Evangélico Brasileiro

O crescimento evangélico no Brasil não é apenas um fenômeno de fé, mas um movimento social. Hoje, o perfil médio é composto majoritariamente por mulheres, pessoas negras e moradores de periferias urbanas. Diferente do catolicismo tradicional, muitas vezes herdado por tradição familiar, o "ser evangélico" no Brasil está ligado à conversão ativa e ao pertencimento a uma comunidade que oferece suporte emocional e social.

As Três Grandes "Ondas" (Subdivisões)

Para entender esse grupo, precisamos olhar para as suas camadas:

  1. Missionárias ou Históricas (Batistas, Presbiterianos, Metodistas): São os herdeiros diretos da Reforma Protestante. Sua ênfase é no estudo bíblico doutrinário, na liturgia organizada e na educação. Creem na salvação pela fé e na autoridade suprema das Escrituras, com um estilo mais contido e intelectualizado.

  2. Pentecostais (Assembleia de Deus, Congregação Cristã): Representam a maior fatia. Surgiram no início do século XX com foco no batismo no Espírito Santo e nos dons espirituais (como o falar em línguas e curas). A ênfase aqui é a experiência emocional e o fervor espiritual.

  3. Neopentecostais (Universal, Renascer, Mundial): Surgidas a partir dos anos 70, focam na Teologia da Prosperidade e na Batalha Espiritual. A ênfase é pragmática: a fé deve gerar resultados visíveis agora  vitória financeira, saúde física e libertação de "encostos".


O Paradoxo: Um Livro, Mil Igrejas

A pergunta que muitos fazem é: se a Bíblia é uma só, por que existem tantos grupos?

Pode-se dizer que a causa esteja ligada ou reside na hermenêutica (a ciência da interpretação). Ao contrário da Igreja Católica, que possui um Magistério centralizado para definir a interpretação oficial, restringindo a prática da leitura e a interpretação das Escrituras aos teólogos e prelados, o protestantismo nasceu sob o pilar do Livre Exame. Isso significa que cada indivíduo tem a liberdade e até a responsabilidade de estudar a Palavra de Deus (João 5:39). Para alguns analistas este quadro de liberdade seria a razão principal para que no decorrer da história surgisse uma fragmentação doutrinária onde divergências sobre diferentes pontos se estabelecessem.

A Perspectiva do "Grande Conflito"

Mas para os adventistas o ponto central da disseminação de inúmeras verdades, crenças e doutrinas a partir da interpretação do mesmo livro está no contexto do Grande Conflito. Ellen White comenta que essa fragmentação não é apenas um subproduto cultural, mas uma evidência do Grande Conflito entre Cristo e Satanás.

Dentro dessa perspectiva, a estratégia do adversário não seria destruir a Bíblia, mas confundir a sua interpretação. Ao pulverizar a verdade em milhares de vertentes, o "inimigo" criou um ruído teológico que dificulta a identificação da mensagem central e dos mandamentos de Deus. Profeticamente está revelado que o erro muitas vezes se estabelece numa mistura com a verdade (o "vinho de Babilônia"- Apocalipse 17), fazendo com que o mundo religioso se tornasse um cenário de confusão (Babel), onde as pessoas escolhem igrejas que se adaptam às suas preferências pessoais, em vez de se adaptarem à verdade plena da Palavra de Deus.

Essa "explosão" evangélica no Brasil reflete, portanto, uma busca por identidade e respostas rápidas em um mundo em crise, mas também levanta o alerta sobre a importância de retornar ao "Assim diz o Senhor" para não se perder no mar de opiniões humanas.

sábado, 2 de maio de 2026

A felicidade está no percurso do caminho ou no ponto de chegada?

 


A ideia de que "a felicidade está no caminho, não no destino" tornou-se um mantra moderno, quase um clichê de desenvolvimento pessoal. No entanto, a visão  de que se trata de uma interdependência entre os dois é muito mais precisa e psicologicamente sustentável.

Separar o percurso da chegada é criar uma falsa dicotomia. A ideia de que a felicidade reside exclusivamente no trajeto é uma meia-verdade atraente, mas incompleta. Se o caminho fosse o único valor, o caminhante seria apenas um errante sem propósito. A verdadeira plenitude parece florescer justamente na tensão entre o passo presente e o horizonte prometido. É como um arco: a beleza não está apenas na flecha em pleno voo, mas na tensão da corda que sabe exatamente para onde aponta e no alvo que justifica o disparo.

1. O Percurso: A Textura da Vida

A valorização do caminho surge como um antídoto ao que os psicólogos chamam de "Falácia da Chegada"  a crença de que, ao atingir uma meta (comprar a casa, casar, ganhar o prêmio), seremos felizes para sempre. O problema é que o cérebro humano se adapta rapidamente às conquistas (adaptação hedônica).

  • O Estado de Fluxo: A felicidade no percurso geralmente está ligada ao "engajamento". É o prazer de exercer uma habilidade, de aprender e de estar presente.

  • Sustentabilidade: Se a felicidade dependesse apenas da linha de chegada, viveríamos 99% do tempo em privação e apenas 1% em celebração.

2. O Ponto de Chegada: O Âncora do Significado

Aqui entra um ponto fundamental: o caminho sem destino é apenas movimento errático. Para que o percurso seja prazeroso, ele precisa de uma direção. O ponto de chegada não é apenas o fim; ele é o que dá forma e sentido ao trajeto.

A Perspectiva Espiritual (A Alegria da Promessa)

No contexto cristão  a felicidade da "espera" pela volta de Jesus não é uma espera vazia. É uma alegria antecipada.

  • Teleologia: A teologia ensina que o fim (o Telos) define o presente. A felicidade do cristão no percurso não existe apesar da chegada, mas por causa dela.

  • Perseverança: A alegria de ter "perseverado na fé" só faz sentido se houver um prêmio real ao final. Sem o destino, a perseverança seria apenas teimosia.

C.S. Lewis, em sua obra Surpreendido pela Alegria, descreve um tipo de desejo que ele chama de "Joy" (Alegria)  um anseio que nos toca no presente, mas que aponta para algo além. Para Lewis, essa felicidade do percurso é uma "placa de sinalização"; ela é maravilhosa, mas seu propósito é indicar que existe um destino real. No contexto cristão, essa dinâmica fica clara na relação com a Segunda Vinda. O apóstolo Paulo, ao final de sua vida, não celebrava apenas o "ter caminhado", mas o fato de ter completado a carreira e guardado a fé, aguardando a "coroa da justiça" (2 Timóteo 4:7-8). Aqui, a felicidade da chegada não anula a jornada, mas a consagra. É a exultação de Isaías 25:9: "Este é o nosso Deus, a quem aguardávamos". O prazer não é apenas o fim da espera, mas a confirmação de que a espera teve um sentido.

Essa lógica se aplica com igual força aos nossos projetos materiais e relacionais. O psiquiatra Viktor Frankl, em Em Busca de Sentido, argumentava que o ser humano não precisa de um estado de equilíbrio sem tensões, mas da busca por um objetivo que valha a pena. Construir uma família ou consolidar uma carreira traz um "prazer de chegada" que é fundamental para a identidade humana. Quando um pai vê o filho formado ou um profissional conclui uma obra complexa, ocorre uma integração psíquica: o esforço do passado encontra sua recompensa no agora. Esse momento de "chegada" funciona como um topo de montanha que, uma vez alcançado, permite contemplar todo o vale percorrido com gratidão e contentamento.

Portanto, a felicidade equilibrada é aquela que sabe habitar o "ainda não" sem desprezar o "já". É a capacidade de manifestar gratidão pelo que se possui hoje: o pão no prato e o fôlego nos pulmões; sem perder a chama da esperança pelo que virá. O percurso nos dá a substância do crescimento, mas o ponto de chegada nos dá a dignidade do propósito. No fim, ser feliz não é escolher entre caminhar ou chegar, mas entender que caminhamos porque existe um destino, e chegaremos porque não desistimos de caminhar.

Afinal, para quem sabe para onde vai, o caminho deixa de ser um fardo e passa a ser a antecipação da festa.

Conclusão

A felicidade plena parece ser o resultado de caminhar com propósito. Se você foca só no caminho, corre o risco de se perder em um hedonismo momentâneo sem profundidade. Se foca só na chegada, torna-se um ansioso que não vive o agora.

A equação madura é:

Felicidade = celebrar os pontos de chegada (dom de Deus) + saborear o percurso (graça de Deus), sem que um anule o outro.

O erro é a absolutização:

  • Absolutizar o ponto de chegada = Ansiedade, frustração, vida adiada.

  • Absolutizar o percurso = Relativismo, falta de propósito, celebração vazia do “momento”.

Para o cristão, a vida é uma viagem com um destino glorioso (o encontro face a face com Deus e a vida no novo céu e nova terra), mas cuja viagem em si já é prenhe desse futuro. Cada passo de amor, cada lágrima enxuta, cada fé perseverante já é um “antecipar” da alegria que virá. O percurso ganha significado porque o destino é seguro; o destino é desejado porque o percurso já foi habitado por Aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida.

A felicidade, portanto, é a certeza do destino iluminando cada passo da jornada.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Por que o justo sofre?

 


A questão do sofrimento humano, especialmente quando recai sobre aqueles que consideramos "bons", é uma das feridas abertas da filosofia e da teologia. O livro de Jó, na Bíblia, permanece como o monumento mais imponente a esse dilema, confrontando a lógica humana da retribuição com a vastidão insondável da sabedoria divina.

O Colapso da Lógica da Retribuição

Historicamente, as sociedades antigas  e muitas vezes a nossa mentalidade moderna  operam sob o "Princípio da Retribuição": a ideia de que, se você pratica o bem e segue as leis divinas, a vida deve lhe retribuir com prosperidade e ausência de dor. Jó é a antítese dessa lógica. Ele é descrito como um homem íntegro que, subitamente, perde tudo.

O  livro de Jó desafia a concepção de que o justo sempre se dá bem e o malvado se dá mal . Na realidade, o mundo nos mostra que pessoas boas sofrem e pessoas ruins prosperam, o que nos força a questionar se a nossa virtude é um critério para exigir algo de Deus.

O Confronto com a Soberania Divina

Quando Jó finalmente questiona Deus, a resposta que recebe não é uma explicação pedagógica ou uma justificativa. Deus responde com uma série de perguntas sobre a criação: "Onde você estava quando eu lancei os fundamentos da terra?" Essa abordagem revela que o ser humano, em sua finitude, não possui a perspectiva necessária para julgar o governo do universo.

Aprendemos com Jó que não somos ninguém para "jogar na cara de Deus" o nosso sofrimento como se fôssemos credores de um tratamento especial. O sofrimento pode não ser um castigo, mas parte de uma complexidade cósmica que escapa à nossa compreensão limitada.

Entre o Livre-Arbítrio e a Ética

Uma das chaves para entender a presença do mal no mundo é o livre-arbítrio. Para  Agostinho, Deus criou o mundo perfeito, mas deu ao homem a capacidade de escolher entre o bem e o mal. Muitas vezes, quando perguntamos "onde estava Deus?" diante de uma tragédia humana, a pergunta mais urgente deveria ser "onde estava o ser humano?" 

O erro humano está em esperar que a bondade de Deus signifique um mundo sem atritos ou dores. Pessoas boas sofrem não porque Deus é mau ou indiferente, mas porque vivemos em uma realidade complexa  com liberdade, leis naturais, consequências históricas e um inimigo espiritual (o “adversário” do livro de Jó). Além disso, o sofrimento pode ter funções que só enxergamos em parte: amadurecimento, quebra de autossuficiência, solidariedade com os que padecem e até preparo para uma glória futura.

A relação com o divino, portanto, deixa de ser uma "mágica" de troca  onde ofereço sacrifícios para obter favores  e passa a ser uma jornada ética. Deus não quer apenas rituais; Ele aponta para o cuidado com os órfãos e viúvas, ou seja, para como agimos diante da dor do outro.

O Desfecho: Pó e Cinzas

O momento transformador de Jó ocorre quando ele finalmente reconhece sua posição. Ao declarar "meus ouvidos já tinham ouvido a teu respeito, mas agora os meus olhos te viram; por isso me abomino e me arrependo no pó e na cinza", Jó não está apenas se humilhando, mas sendo libertado da carga de tentar entender o que é ininteligível.

Reconhecer-se como pó e cinzas é admitir a própria fragilidade e contingência. É entender que a sabedoria humana é apenas um vislumbre diante daquele que conhece o caminho da verdadeira sabedoria. Diante de Deus, o homem descobre que a paz não vem de ter todas as respostas, mas de confiar no caráter daquele que sustenta as estrelas, mesmo quando o chão sob nossos pés parece ceder.




segunda-feira, 20 de abril de 2026

O Amor como termômetro da religiosidade

 



Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (João 13:35). As palavras de Jesus não apenas definem a identidade do verdadeiro cristão, mas também estabelecem um critério visível, prático e inegociável: o amor. Não um amor teórico, discursado ou ocasional, mas um amor vivido, percebido e experimentado nas relações do dia a dia.

Entretanto, ao olharmos para o cenário descrito por Cristo acerca do tempo do fim  “por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará” (Mateus 24:12)  somos levados a uma reflexão inevitável. Se o amor é o sinal distintivo dos discípulos, e esse amor tende a esfriar, então o verdadeiro cristianismo não será reconhecido pela maioria, mas por aqueles poucos que mantiverem acesa essa chama divina.

Diante disso, o amor torna-se um verdadeiro termômetro espiritual. Ele revela, com precisão, a temperatura da nossa vida com Deus. Não são apenas nossas palavras, nossos conhecimentos ou práticas religiosas que indicam quem somos, mas a maneira como tratamos o próximo  especialmente nos momentos de conflito, frustração ou discordância.

Esse termômetro nos convida à percepção e à autoconfrontação. Como temos reagido às pessoas? Há em nós espaço para o amor verdadeiro, ou temos permitido que sentimentos como ciúme, inveja, crítica, rivalidade e desconfiança ocupem esse lugar? Muitas vezes, esses elementos não aparecem de forma evidente, mas se manifestam em atitudes sutis, em palavras impensadas, em julgamentos silenciosos ou na incapacidade de se alegrar com o bem do outro.

O amor ensinado por Jesus vai além de atos pontuais de bondade. Ele se desdobra em uma transformação interior que alcança as intenções mais profundas do coração. Amar é escolher não alimentar o ciúme, é resistir à inveja, é refrear a crítica destrutiva, é abandonar a rivalidade, é vencer a desconfiança com graça. E, acima de tudo, amar é perdoar  mesmo quando não há merecimento aparente, mesmo quando há dor envolvida.

O perdão, aliás, é uma das mais altas expressões desse amor. Ele rompe ciclos de mágoa, restaura relacionamentos e revela que o amor de Deus está, de fato, habitando em nós. Sem perdão, o amor se torna incompleto; com ele, o amor se torna semelhante ao de Cristo.

Por isso, mais do que medir, o termômetro do amor nos chama à ação. Ele nos convida a reconhecer nossas limitações e a buscar, com sinceridade, aquilo que não conseguimos produzir por nós mesmos. O amor verdadeiro não é fruto do esforço humano isolado, mas da presença de Deus no coração. É por isso que precisamos clamar: que o amor de Cristo habite em nós, transforme-nos e transborde através de nós.

No tempo em que o amor se torna escasso, cada manifestação genuína dele brilha como luz em meio à escuridão. E assim, aqueles que permitem que esse amor os governe não apenas cumprem um mandamento, mas revelam ao mundo quem realmente são: discípulos de Jesus.

sábado, 18 de abril de 2026

O segredo do equilíbrio e do bem estar

 


Quando voltamos nossa atenção obsessivamente para dentro, o silêncio costuma ser preenchido por uma lista de cobranças. É o que Ernesto Reis mencionou sobre a adaptação hedônica: o cérebro se acostuma com o que conquistou e, imediatamente, projeta a felicidade para o próximo degrau. Se você não cultiva a gratidão e o contentamento pelo que já possui, vive em um estado de "quase lá".

Esse estado de alerta constante  a sensação de insuficiência  é o combustível para transtornos de ansiedade e episódios depressivos. É aqui que muitas pessoas, exaustas de correr atrás de uma linha de chegada que se move, buscam alívio em substâncias psicoativas para silenciar essa voz interna que diz: "você ainda não é o bastante".

A Bíblia alerta que o desejo desenfreado pelo que falta (ganância/inveja) adoece o corpo e a mente.

1 Timóteo 6:6-8: "Mas é grande ganho a piedade acompanhada de contentamento. Porque nada trouxemos para este mundo, e manifesto é que nada podemos levar dele. Tendo, porém, sustento, e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes."

Virando a Câmera: O Serviço como Antídoto

A ciência do "Helpers High" (o barato de quem ajuda) mostra que, ao direcionar a energia para fora  para servir, ensinar ou apoiar alguém, interrompemos o ciclo de ruminação negativa.

  • A lógica é simples: é difícil sentir o "vazio existencial" enquanto você está ocupado preenchendo o vazio de outras pessoas.
  • O efeito biológico: Esse movimento gera uma farmácia interna natural. A liberação de ocitocina e serotonina através do altruísmo acalma o sistema nervoso de uma forma que o consumo material jamais conseguiria, reduzindo os níveis de cortisol (o hormônio do estresse).                                                                                               

A ideia de que o serviço para o outro cura o próprio vazio é um dos pilares do ensino cristão.

Atos 20:35: "Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é necessário auxiliar os enfermos, e recordar as palavras do próprio Senhor Jesus, que disse: Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber."

Contentamento: O Estabilizador Mental

O contentamento não é passividade; é a capacidade de estar em paz enquanto a jornada acontece. Ao praticar a gratidão, você treina seu cérebro para reconhecer a abundância. Isso cria um terreno psicológico firme.

Quando o seu valor não depende do próximo aplauso ou da próxima compra, você adquire autodomínio.

Uma pessoa que não precisa provar nada ao mundo é alguém que raramente entra em colapso por críticas ou revezes externos. Essa estabilidade emocional é a maior prevenção contra a busca desesperada por "anestésicos" (sejam eles remédios sem prescrição, álcool ou outras substâncias), pois o indivíduo deixa de tentar preencher um buraco espiritual com soluções químicas.

I Tessalonicenses 5:18: "Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco." 

O Equilíbrio da Jornada

Em última análise, o conselho de "viver a jornada com um destino transcendente a qualquer conquista material" é uma estratégia de sobrevivência mental. Ao notar o que já possui e transformar sua existência em um ato de entrega, você deixa de ser um "caçador de prazeres" para se tornar um "cultivador de sentido". E, onde há sentido, o vazio perde o seu poder de nos adoecer.


O TEMPO DO FIM! Pregação do Pr. Luiz Gonçalves


 

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Sábado – Dia de Restauração e Libertação


 Desde a origem da criação, o sábado foi instituído como um memorial da obra divina, um convite ao descanso e à contemplação do poder criador de Deus, conforme apresentado em Êxodo 20. Ali, o sétimo dia surge como celebração da vida, da ordem e da perfeição estabelecidas pelo Criador. Contudo, após a entrada do pecado no mundo, o significado do sábado se amplia, assumindo também um caráter profundamente redentor.

Em Deuteronômio 5, ao repetir a lei, Deus associa o sábado não apenas à criação, mas à libertação: “Lembra-te que foste servo na terra do Egito... e o Senhor teu Deus te tirou dali... pelo que o Senhor teu Deus te ordenou que guardasses o dia de sábado.” Aqui, o sábado passa a ser também um memorial da redenção  um símbolo de libertação da escravidão. O Egito, nesse contexto, torna-se uma representação da condição humana sob o pecado, da qual Deus deseja libertar cada pessoa.

É exatamente essa dimensão restauradora e libertadora que Jesus evidencia em Seu ministério. Longe de anular o sábado, Ele o resgata de interpretações legalistas e o reconduz ao seu propósito original. Em diversas ocasiões, Cristo escolheu o sábado para operar milagres, revelando que este dia é especialmente apropriado para restaurar vidas e reconectar o ser humano com Deus.

Podemos lembrar da cura do homem com a mão ressequida (Marcos 3:1-5), quando Jesus, diante da dureza dos corações, pergunta: “É lícito no sábado fazer o bem ou fazer o mal? salvar a vida ou matar?”  e, em seguida, restaura completamente aquele homem. Também há a libertação da mulher encurvada havia dezoito anos (Lucas 13:10-17), a quem Jesus descreve como “filha de Abraão” presa por Satanás, e que deveria ser solta justamente no sábado. Ainda, a cura do paralítico no tanque de Betesda (João 5), que por décadas vivia à margem da esperança, encontra naquele dia a restauração de sua dignidade e mobilidade.

Esses milagres não foram atos aleatórios, nem confrontos vazios com a tradição judaica. Pelo contrário, foram manifestações intencionais do verdadeiro significado do sábado. Jesus demonstrou que o sábado não é um fardo, mas um presente  um tempo separado para a restauração integral do ser humano: física, emocional e espiritual.

Ao declarar: “O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” (Marcos 2:27), Cristo reafirma o valor permanente desse dia, ao mesmo tempo em que corrige sua distorção. O sábado não existe para oprimir, mas para libertar; não para limitar, mas para restaurar.

Assim, o sábado une dois grandes eixos da revelação divina: criação e redenção. Ele aponta para o Deus que criou todas as coisas e também para o Deus que liberta, cura e restaura. Em um mundo marcado pelo cansaço, pela opressão e pelas consequências do pecado, o sábado permanece como um convite semanal à experiência da graça  um lembrete de que, assim como Deus libertou Israel do Egito e restaurou vidas nos dias de Jesus, Ele continua hoje a oferecer descanso, cura e verdadeira liberdade a todos que se aproximam dEle.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

O preço pela rejeição ao Príncipe da Paz

 


A história espiritual de Israel carrega momentos de profunda revelação, mas também de decisões que ecoaram por séculos. Entre esses momentos, destaca-se a rejeição ao Jesus Cristo, aquele que veio proclamando um reino não baseado em poder político ou força militar, mas em amor, justiça e reconciliação com Deus.

Durante seu ministério, Jesus confrontou não apenas práticas equivocadas, mas também a dureza de coração da elite religiosa que, ao invés de conduzir o povo à verdade, muitas vezes se prendeu a tradições e interesses próprios. Aqueles que deveriam reconhecer os sinais do Messias foram, paradoxalmente, os que mais resistiram à sua mensagem.

Em um dos momentos mais marcantes de sua caminhada, Jesus lamentou profundamente essa rejeição. Conforme registrado no Evangelho de Mateus (23:37), ele declarou: “Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e tu não quiseste!” Essa expressão revela não apenas tristeza, mas o desejo sincero de proteção e cuidado que foi recusado.

Além disso, Jesus advertiu sobre as consequências dessa rejeição. Ao contemplar o majestoso templo de Jerusalém, símbolo da fé e identidade nacional, afirmou que “não ficaria pedra sobre pedra” (Mateus 24:1-5. Essa profecia se cumpriria décadas depois, quando Jerusalém foi destruída, marcando o início de um período de dispersão  a diáspora  e de intensos sofrimentos para o povo judeu.

A contínua rejeição ao Príncipe da Paz culminou em seu martírio, um ato que, embora central para a fé cristã como expressão máxima de redenção, também representa, sob essa perspectiva, o ponto crítico de uma escolha coletiva. A partir daí, Israel enfrentou séculos de instabilidade, perseguições e ausência de paz duradoura.

Mesmo nos dias atuais, a nação de Israel vive em um contexto de tensões e conflitos. As consequências não se limitam ao âmbito regional, mas reverberam globalmente, afetando economias, relações internacionais e a sensação de segurança mundial. O cenário atual é incerto e nebuloso.

Diante disso, surge uma reflexão inevitável: poderia ter sido diferente? A mensagem de Jesus era clara  amor ao próximo, humildade, perdão e busca pela paz. Valores que, se acolhidos plenamente, poderiam ter conduzido a história por caminhos bem diferentes.

Hoje, mais do que nunca, o mundo colhe frutos de escolhas passadas. A rejeição ao Príncipe da Paz não é apenas um episódio histórico, mas um alerta atemporal. Aceitar seus ensinamentos não é apenas uma questão de fé, mas um convite à transformação pessoal e coletiva  um caminho que ainda permanece aberto para aqueles que desejam trilhar a paz verdadeira.