A pergunta do jovem rico ecoa através dos séculos com uma força inquietante: “O que me falta ainda?” (Mateus 19). À primeira vista, ele parecia ter tudo – moral, disciplina, religiosidade, zelo. Guardava os mandamentos, vivia de forma correta e buscava sinceramente a vida eterna. Ainda assim, havia um vazio, uma percepção silenciosa de que algo essencial estava ausente.
Essa mesma pergunta continua a ressoar no coração de muitos cristãos hoje.
Vivemos uma fé que, por vezes, se limita ao cumprimento de deveres. Frequentamos cultos, seguimos tradições, defendemos doutrinas, mantemos uma aparência de fidelidade. Mas, assim como aquele jovem, podemos estar diante de Deus com uma vida aparentemente irrepreensível – e ainda assim incompleta. Isso revela uma verdade profunda: a obediência, quando reduzida à obrigação, não satisfaz o propósito divino.
A resposta de Jesus ao jovem rico não foi sobre fazer mais, mas sobre entregar mais. Não se tratava apenas de cumprir mandamentos, mas de reorganizar o coração. As riquezas daquele jovem não eram apenas bens materiais – eram o centro de sua segurança, sua identidade, seu afeto. Ao pedir que ele as deixasse, Jesus estava, na verdade, tocando naquilo que ocupava o lugar que deveria pertencer a Deus.
Aqui está o ponto crucial: o que nos falta, muitas vezes, não é mais esforço religioso, mas um amor verdadeiro.
Quando Jesus perguntou a Pedro repetidamente: “Amas-me?”, Ele não estava buscando informação, mas transformação. Pedro já havia demonstrado zelo, coragem e até impulsividade em sua caminhada. Mas Jesus sabia que somente o amor sustentaria uma fé autêntica e duradoura. O amor seria o fundamento do seu ministério, da sua perseverança e da sua fidelidade.
O apóstolo Paulo reforça essa mesma verdade de maneira contundente: ainda que alguém possua fé extraordinária, capaz de mover montanhas, sem amor – nada é. Isso desmonta qualquer ilusão de que práticas externas ou dons espirituais possam substituir a essência da vida cristã. Sem amor, tudo se torna vazio, mecânico e sem valor diante de Deus.
E que amor é esse?
Não é um sentimento passageiro ou uma emoção superficial. É um princípio que governa a vida. É uma convicção tão profunda que leva alguém a sacrificar-se pelo que considera mais importante. É o que move um pai a lutar por sua família, uma pessoa a permanecer fiel em meio à adversidade, um cristão a escolher Deus acima de tudo – inclusive de si mesmo.
Talvez o maior desafio dos cristãos hoje esteja exatamente aqui. Vivemos em uma geração marcada pelo egocentrismo, pela busca incessante de prazer, pelo conforto elevado à categoria de prioridade máxima. O “eu” tornou-se o centro, e tudo gira em torno da satisfação pessoal. Nesse contexto, amar a Deus acima de todas as coisas exige ruptura. Exige renúncia. Exige coragem.
Assim como o jovem rico precisava abandonar suas riquezas, muitos hoje precisam abandonar seus próprios “deuses”: o comodismo, a vaidade, o prazer desenfreado, a autossuficiência. Não porque Deus deseja privar, mas porque Ele deseja ocupar o lugar que é Seu por direito – o centro do coração humano.
A pergunta permanece: o que me falta ainda?
Talvez a resposta não esteja em fazer mais, mas em amar mais. Amar de forma real, prática, sacrificial. Amar a Deus não apenas com palavras ou hábitos religiosos, mas com a vida inteira.







