Um dos maiores entraves do relacionamento humano, tanto no mundo secular quanto, paradoxalmente, dentro de comunidades religiosas, é a tendência de medir o outro a partir de critérios de poder, prestígio e aparência. Na lógica dominante da sociedade contemporânea, as relações são frequentemente moldadas por competição, visibilidade e influência. O desejo de ostentação, de projeção pessoal e de reconhecimento social torna-se uma moeda de valor: quem aparece mais, quem fala melhor, quem tem mais recursos ou status tende a ser mais considerado. Nesse processo, a autenticidade é sacrificada, pois o indivíduo passa a desempenhar papéis, construir imagens e adaptar-se às expectativas do grupo para ser aceito ou admirado.
Esse padrão, contudo, não deveria encontrar espaço nas comunidades eclesiásticas, que, em tese, são chamadas a viver sob uma lógica radicalmente diferente. As palavras de Jesus em Marcos 10:43-45 — “entre vós não será assim”; estabelecem um contraponto claro à dinâmica de dominação e exaltação própria do mundo. O discipulado cristão propõe uma inversão de valores: grande é quem serve, e liderança se expressa em humildade, não em poder.
Ainda assim, um dos grandes desafios da igreja hoje é justamente não reproduzir, de forma sutil ou explícita, os mesmos critérios mundanos de valorização das pessoas. Muitas comunidades, ainda que carreguem uma linguagem religiosa e uma doutrina ortodoxa, acabam avaliando e hierarquizando seus membros por impressões superficiais: carisma, eloquência, sucesso profissional, aparência, ou mesmo por uma performance de “espiritualidade”. Da mesma forma, há a tentação de rotular e desqualificar pessoas com base em erros passados, demonstrando pouca graça, pouca misericórdia e uma preocupante facilidade para a indiferença.
Uma comunidade verdadeiramente cristã é chamada a romper esses paradigmas. Isso exige uma conversão não apenas de discurso, mas de coração e prática. Trata-se de cultivar um ambiente onde as pessoas não sejam julgadas ou pré-julgadas, mas acolhidas; onde o perdão prevaleça sobre a condenação, e o amor sobre a suspeita. Significa aprender a enxergar o outro para além das marcas, títulos, posições ou aparências, valorizando qualidades interiores como bondade, honestidade, humildade e integridade; valores que não brilham aos olhos do mundo, mas que são centrais ao Reino de Deus.
Quando uma comunidade cristã ainda presta consideração e reconhecimento segundo padrões mundanos de prestígio e ostentação, ela corre o risco de se tornar apenas uma comunidade doutrinarista: correta em seus princípios teóricos, mas distante do espírito do Evangelho. Pode ensinar aspectos da religiosidade, mas falha em encarnar o caráter de Cristo em suas relações. Representar o Reino de Deus na Terra implica viver uma ética relacional diferente; marcada pelo serviço, pela graça e por um amor que não discrimina, não instrumentaliza e não descarta pessoas. Somente assim a igreja poderá ser, de fato, um sinal vivo de um modo alternativo de ser humano em comunidade.








