sábado, 21 de fevereiro de 2026

Onde está o seu tesouro?

 


“Porque onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mateus 6:21). As palavras de Jesus são simples, mas profundamente reveladoras. Elas não tratam apenas de dinheiro, mas do centro da vida. O tesouro é aquilo que valorizamos acima de tudo, o lugar onde investimos nosso tempo, nossos afetos, nossos pensamentos e nossas energias. É aquilo que ocupa a mente ao acordar e que nos acompanha silenciosamente ao deitar.

Cada pessoa, consciente ou não, constrói o seu tesouro ao longo da vida. Para alguns, ele se traduz em segurança financeira. A parábola do rico insensato, em Lucas 12:16-21, mostra um homem que acumulou bens e disse à própria alma: “tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te”. Seu erro não foi trabalhar ou prosperar, mas fazer da abundância material o fundamento de sua segurança e o sentido de sua existência. Ele construiu celeiros maiores, mas negligenciou a eternidade.

Para outros, o tesouro se encontra no prazer, na realização pessoal, no orgulho das conquistas. O rei Nabucodonosor, no Livro de Daniel 4:30, contemplou a grandeza da Babilônia e declarou: “Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei... para glória da minha majestade?”. Seu tesouro estava na própria obra, no brilho de seu império, na exaltação do eu. Contudo, sua história nos lembra que toda glória humana é frágil quando não reconhece a soberania de Deus.

O grande perigo está em edificarmos nosso tesouro neste mundo transitório. Tiago descreve a vida como “neblina que aparece por um instante e logo se dissipa” (Tiago 4:14-15). Tudo aqui é passageiro: riquezas podem se perder, posições podem ser tiradas, prazeres se esvaem, aplausos cessam. Quando nosso tesouro está preso ao que é temporário, nosso coração vive vulnerável, ansioso e constantemente ameaçado pela possibilidade de perda.

Além disso, os tesouros deste mundo frequentemente se contrapõem ao Reino de Deus. Não porque as coisas materiais ou as conquistas sejam intrinsecamente más, mas porque, quando ocupam a primazia, roubam de Deus o primeiro lugar. O tesouro cativa nosso amor e nossa devoção; ele determina nossas prioridades e, muitas vezes, consome a maior parte do nosso tempo. Se o Reino é secundário, se a comunhão com Deus é deixada para quando sobra tempo, isso revela onde está o verdadeiro centro da vida.

Perguntar “onde está o meu tesouro?” é, na verdade, perguntar: quais são os meus referenciais? O que dá sentido à minha jornada? O que define minhas escolhas? O que mais temo perder? O que mais desejo conquistar? Jesus nos convida a uma autoanálise honesta, pois o coração sempre seguirá o tesouro.

O Reino de Deus nos chama a um tesouro diferente: não baseado no acúmulo, na autoexaltação ou na busca incessante por satisfação pessoal, mas nos valores eternos: justiça, amor, fidelidade, serviço e comunhão com o próprio Deus. Quando nosso tesouro está em Cristo, as demais coisas encontram seu devido lugar. O trabalho deixa de ser idolatria e se torna vocação; os bens deixam de ser segurança absoluta e passam a ser instrumentos; as conquistas deixam de alimentar o orgulho e passam a glorificar a Deus.

No fim, a questão não é se temos um tesouro, mas qual é ele. Porque inevitavelmente nosso coração estará onde colocamos aquilo que mais amamos. E somente o tesouro eterno pode sustentar o coração humano para além da neblina passageira desta vida.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Vice-chanceler alemão se posiciona pelo euro digital

 


Conforme matéria publicada pela Euronews, que pode ser acessada <aqui>,  o vice-chanceler alemão se posicionou incisivamente quanto a implementação do  euro digital.  O debate sobre o avanço do dinheiro digital ganhou novo fôlego após declarações do vice-chanceler alemão defendendo que atrasar o euro digital pode prejudicar a competitividade da Europa. 

A proposta do euro digital, conduzida pelo Banco Central Europeu, não é um caso isolado, mas parte de um movimento global mais amplo: a transição do dinheiro físico para formas totalmente digitais emitidas pelos próprios bancos centrais, as chamadas CBDCs (Central Bank Digital Currencies).

Nos últimos anos, o dinheiro deixou de ser apenas papel e metal para tornar-se código. Transferências instantâneas, carteiras digitais e pagamentos por aproximação já fazem parte da rotina de bilhões de pessoas. Nesse contexto, os governos passaram a considerar inevitável que a própria moeda soberana acompanhe essa transformação. A justificativa é clara: preservar a soberania monetária diante do crescimento das criptomoedas privadas e da dominância de grandes empresas de tecnologia nos sistemas de pagamento globais.

Alguns países já foram além da fase de testes e implementaram oficialmente suas moedas digitais. A China é o caso mais emblemático, com o yuan digital (e-CNY), emitido pelo Banco Popular da China, já utilizado em diversas cidades e integrado a plataformas de pagamento amplamente usadas no país. No Caribe, as Bahamas lançaram o Sand Dollar por meio do Banco Central das Bahamas, tornando-se o primeiro país a implantar uma CBDC nacional. A Nigéria seguiu o mesmo caminho com a eNaira, emitida pelo Banco Central da Nigéria. Países do Caribe Oriental também adotaram o DCash, coordenado pelo Banco Central do Caribe Oriental. Além deles, a Jamaica implementou o Jam-Dex, através do Banco da Jamaica. Outros países, como Índia e Brasil, avançam em projetos piloto ou fases preparatórias.

As vantagens apresentadas são significativas. Uma CBDC pode reduzir custos de transação, ampliar a inclusão financeira em regiões onde o acesso bancário é limitado, permitir transferências instantâneas e oferecer maior eficiência no combate à lavagem de dinheiro e à evasão fiscal. Em crises econômicas, bancos centrais poderiam distribuir recursos diretamente à população, sem intermediação bancária tradicional. Para países emergentes, a moeda digital também representa modernização e competitividade no comércio internacional.

Contudo, à medida que o dinheiro se torna programável e rastreável, surgem preocupações legítimas. Diferentemente do dinheiro em espécie, que oferece anonimato natural, uma moeda digital estatal pode registrar cada transação. Mesmo que autoridades prometam proteção de dados e limites legais, a arquitetura tecnológica abre a possibilidade, ao menos em teoria, de monitoramento amplo da vida financeira dos cidadãos. Em cenários extremos, poderia haver bloqueios de contas, restrições de gastos ou aplicação automática de sanções financeiras. A discussão, portanto, não é apenas tecnológica, mas profundamente política e ética.

Alguns líderes de vertentes mais nacionalistas ou de extrema direita têm se posicionado contra as CBDCs, alegando riscos à liberdade individual e à soberania pessoal. Ainda assim, o movimento global indica que a digitalização da moeda parece difícil de reverter. A competição geopolítica, a pressão tecnológica e a busca por eficiência econômica criam um ambiente em que abandonar esse caminho se torna cada vez menos provável.

Para muitos observadores religiosos, esse cenário desperta associações com a descrição bíblica de Apocalipse 13, que menciona um sistema no qual ninguém poderia “comprar ou vender” sem determinada autorização. Evidentemente, essa é uma interpretação teológica e não uma análise econômica formal. Contudo, ela revela como transformações financeiras profundas tocam dimensões espirituais e existenciais da sociedade. Quando o controle do meio de troca, elemento essencial da vida cotidiana, se concentra em estruturas centrais altamente tecnológicas, o debate ultrapassa o campo técnico e entra no terreno da liberdade e da consciência.

A digitalização do dinheiro pode representar um avanço para a humanidade em termos de eficiência, transparência e integração econômica. Mas o modo como será implementada determinará se ela fortalecerá cidadãos ou ampliará o poder do Estado sobre a vida privada. O futuro do dinheiro parece cada vez mais digital; a questão decisiva é quais salvaguardas serão estabelecidas para garantir que progresso tecnológico não se transforme em instrumento de controle excessivo

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Como pregar para pessoas de mentalidade pós-moderna?


 

Vivemos em uma época curiosa. Nunca houve tantas opções de entretenimento, consumo, experiências e possibilidades. A tecnologia promete facilitar tudo; o mercado promete satisfazer todos os desejos; a cultura insiste que a felicidade está ao alcance de um clique. A mentalidade pós-moderna não apenas relativizou a verdade,  ela transformou o prazer em critério supremo de sentido. O que é bom é o que me faz sentir bem. O que é verdadeiro é o que funciona para mim.

Nesse cenário, pregar Jesus Cristo parece, à primeira vista, quase um contrassenso. Como falar de renúncia a quem aprendeu que a vida é para ser desfrutada ao máximo? Como anunciar conversão a quem entende liberdade como ausência de limites? Como falar de preparo para a volta de Cristo quando o presente oferece tantas “delícias” sedutoras?

O desafio não está apenas na rejeição intelectual da verdade, mas na sedução do conforto. A pós-modernidade não combate a fé com fogueiras; ela a dilui com distrações. Não é necessário perseguir o cristão se ele estiver suficientemente ocupado, entretido, satisfeito. O perigo não é somente a incredulidade aberta, mas a conformidade silenciosa. E é aqui que as palavras do apóstolo ecoam com força: “não vos conformeis com este mundo” (Romanos 12:2).

O mundo atual oferece uma espiritualidade sem cruz, uma fé sem arrependimento, uma religião que não confronta hábitos nem exige transformação. Mas o evangelho não foi moldado para caber em uma cultura de conforto. Quando Jesus chamou discípulos, chamou-os para negar a si mesmos, tomar a cruz e segui-Lo. Ele nunca prometeu uma vida centrada no prazer; prometeu uma vida cheia de sentido; e isso é muito mais profundo.

A busca pelo prazer como fim em si mesmo produz uma geração ansiosa e insatisfeita. Quanto mais se consome, mais se deseja. Quanto mais se experimenta, menos se encontra contentamento duradouro. O coração humano, criado para o eterno, não se satisfaz plenamente com o imediato. A cultura pode oferecer estímulos, mas não oferece redenção; pode proporcionar experiências, mas não oferece salvação.

É nesse ponto que a mensagem do preparo para a volta de Cristo precisa ser anunciada não como ameaça, mas como convite à lucidez. A esperança da segunda vinda não é fuga da realidade; é a afirmação de que a história tem direção, que o mal não terá a última palavra, que a injustiça será julgada e que a dor não será permanente. Em uma geração que vive apenas para o agora, falar da eternidade é resgatar o verdadeiro horizonte da existência.

Contudo, pregar essa mensagem exige coerência. Não basta denunciar o hedonismo; é preciso viver uma alegria superior. Não basta falar de renúncia; é preciso demonstrar que há satisfação mais profunda em comunhão com Cristo do que nas ofertas do mundo. A conversão inteira não é mutilação da vida,  é libertação do domínio de desejos que escravizam.

Talvez o maior desafio seja este: mostrar que seguir Jesus não é perder as “delícias” da vida, mas redescobrir o verdadeiro sabor dela. O prazer não é o inimigo; o problema é transformá-lo em deus. Quando o prazer ocupa o trono, ele exige cada vez mais e entrega cada vez menos. Quando Cristo ocupa o centro, até as coisas simples ganham significado eterno.

Pregar hoje é chamar pessoas que estão confortavelmente instaladas a despertarem. É lembrar que a vida não é apenas consumo, mas preparação. Que o tempo não é apenas oportunidade de experimentar, mas de decidir. Que a liberdade não é fazer tudo o que se quer, mas ser livre do que nos domina.

Em uma cultura que busca aproveitar tudo antes que acabe, o evangelho proclama que algo infinitamente melhor está por vir. E que vale a pena viver agora à luz dessa promessa. A volta de Jesus não é uma ideia antiquada; é a âncora que impede o cristão de se dissolver na conformidade deste século.

Talvez a pergunta não seja apenas como pregar a uma geração pós-moderna, mas como viver de maneira tão diferente que o contraste desperte perguntas. Quando o mundo perceber que existe uma alegria que não depende de consumo, uma paz que não depende de circunstâncias e uma esperança que não depende do presente, então a mensagem deixará de soar estranha  e começará a parecer necessária.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O que é ser igreja?


 

Um dos maiores entraves do relacionamento humano, tanto no mundo secular quanto, paradoxalmente,  dentro de comunidades religiosas, é a tendência de medir o outro a partir de critérios de poder, prestígio e aparência. Na lógica dominante da sociedade contemporânea, as relações são frequentemente moldadas por competição, visibilidade e influência. O desejo de ostentação, de projeção pessoal e de reconhecimento social torna-se uma moeda de valor: quem aparece mais, quem fala melhor, quem tem mais recursos ou status tende a ser mais considerado. Nesse processo, a autenticidade é sacrificada, pois o indivíduo passa a desempenhar papéis, construir imagens e adaptar-se às expectativas do grupo para ser aceito ou admirado.

Esse padrão, contudo, não deveria encontrar espaço nas comunidades eclesiásticas, que, em tese, são chamadas a viver sob uma lógica radicalmente diferente. As palavras de Jesus em Marcos 10:43-45 — “entre vós não será assim”; estabelecem um contraponto claro à dinâmica de dominação e exaltação própria do mundo. O discipulado cristão propõe uma inversão de valores: grande é quem serve, e liderança se expressa em humildade, não em poder.

Ainda assim, um dos grandes desafios da igreja hoje é justamente não reproduzir, de forma sutil ou explícita, os mesmos critérios mundanos de valorização das pessoas. Muitas comunidades, ainda que carreguem uma linguagem religiosa e uma doutrina ortodoxa, acabam avaliando e hierarquizando seus membros por impressões superficiais: carisma, eloquência, sucesso profissional, aparência, ou mesmo por uma performance de “espiritualidade”. Da mesma forma, há a tentação de rotular e desqualificar pessoas com base em erros passados, demonstrando pouca graça, pouca misericórdia e uma preocupante facilidade para a indiferença.

Uma comunidade verdadeiramente cristã é chamada a romper esses paradigmas. Isso exige uma conversão não apenas de discurso, mas de coração e prática. Trata-se de cultivar um ambiente onde as pessoas não sejam julgadas ou pré-julgadas, mas acolhidas; onde o perdão prevaleça sobre a condenação, e o amor sobre a suspeita. Significa aprender a enxergar o outro para além das marcas, títulos, posições ou aparências, valorizando qualidades interiores como bondade, honestidade, humildade e integridade; valores que não brilham aos olhos do mundo, mas que são centrais ao Reino de Deus.

Quando uma comunidade cristã ainda presta consideração e reconhecimento segundo padrões mundanos de prestígio e ostentação, ela corre o risco de se tornar apenas uma comunidade doutrinarista: correta em seus princípios teóricos, mas distante do espírito do Evangelho. Pode ensinar aspectos da religiosidade, mas falha em encarnar o caráter de Cristo em suas relações. Representar o Reino de Deus na Terra implica viver uma ética relacional diferente; marcada pelo serviço, pela graça e por um amor que não discrimina, não instrumentaliza e não descarta pessoas. Somente assim a igreja poderá ser, de fato, um sinal vivo de um modo alternativo de ser humano em comunidade.

O caso Epstein e o espelho incômodo da alma humana

 


O caso Jeffrey Epstein permanece como uma das revelações mais perturbadoras do nosso tempo, não apenas pelos crimes cometidos, mas pelo que ele desvela sobre a natureza humana e sobre a sociedade que construímos. Não se trata apenas de um indivíduo perverso, mas de uma rede de poder, prestígio e influência que o protegeu, o legitimou e, em muitos momentos, se beneficiou dele. Presidentes, empresários, acadêmicos, artistas, filantropos e figuras tidas como “modelos” circularam em torno de Epstein; alguns por ingenuidade, outros por conveniência, muitos por cumplicidade silenciosa.

Esse caso escancara uma verdade dura: nível intelectual, status socioeconômico, filiação partidária, matriz ideológica ou mesmo uma religião meramente professada não são garantias de caráter. O verniz social: diplomas, títulos, riqueza, reputação pública e discursos virtuosos, pode encobrir por um tempo a podridão moral. Mas não a elimina. A máscara pode ser brilhante; o coração, corrupto. Aplaudimos ícones enquanto ignoramos suas incoerências, celebramos “referências morais” enquanto fechamos os olhos para sua hipocrisia.

Epstein é um símbolo extremo, mas não isolado. Ele nos força a encarar algo desconfortável: a capacidade humana para o mal não está restrita aos marginalizados ou aos “fracassados” da sociedade. Ela habita também os salões luxuosos, as universidades de prestígio, os corredores do poder e até os púlpitos religiosos. Quando a moral é baseada apenas em aparência, poder ou pertencimento, ela se torna frágil e facilmente corrompida.

É nesse ponto que a reflexão espiritual se torna crucial. Se o problema é profundo , enraizado no coração humano, o remédio também precisa ser mais do que superficial. Leis, embora necessárias, não transformam o caráter. Educação sem formação moral pode produzir pessoas brilhantes, mas eticamente deformadas. Religião reduzida a ritual ou identidade cultural pode coexistir com grave perversidade.

O que pode, de fato, regenerar o ser humano é um encontro real com a verdade e o bem, que, para o cristão, têm nome e rosto: Jesus Cristo. Não um Cristo usado como slogan, ornamento cultural ou instrumento político, mas o Cristo vivo, que confronta o pecado, expõe a hipocrisia e, ao mesmo tempo, oferece misericórdia e transformação.

Um relacionamento autêntico com Cristo não encobre o mal; ele o revela para curá-lo. Não cria uma fachada de virtude; forma um caráter novo. Não apenas impõe regras externas, mas muda o interior,  purificando desejos, alinhando intenções e moldando a consciência. Onde antes havia exploração, nasce compaixão; onde havia mentira, surge verdade; onde reinava o egoísmo, floresce o amor sacrificial.

O caso Epstein, portanto, pode ser lido como um alerta e um chamado. Alerta de que nenhuma posição social nos imuniza contra a corrupção moral. Chamado para que busquemos uma transformação que vá além das aparências e alcance o coração. Para quem crê, essa transformação passa necessariamente por uma caminhada sincera com Jesus Cristo — o único capaz de conduzir o caráter humano à pureza e à retidão que tantas vezes proclamamos, mas raramente vivemos.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Como o Cristianismo se distingue das demais religiões


 

O cristianismo não é meramente mais um sistema religioso entre muitos; ele se apresenta como a revelação verdadeira e histórica de Deus ao mundo. Diferente de tradições que oferecem apenas filosofias de vida ou caminhos espirituais, o cristianismo afirma que Deus entrou na história de maneira concreta e decisiva em Jesus Cristo. Por isso, a fé cristã não se baseia em especulação humana, mas em acontecimentos reais que reivindicam validade universal.

Primeiro, o cristianismo oferece o diagnóstico mais fiel da realidade. A Bíblia descreve o mundo como uma criação originalmente boa que foi corrompida pelo pecado; e essa descrição corresponde exatamente ao que observamos: um mundo marcado por beleza e bondade, mas também por corrupção moral, violência, sofrimento e morte. Outras religiões frequentemente reduzem o problema humano à ignorância, à ilusão ou ao desequilíbrio cósmico. A Escritura, porém, vai mais fundo ao identificar o cerne do problema: o fracasso moral e a rebelião do coração humano contra Deus. Nesse sentido, a narrativa bíblica não é uma fuga da realidade, mas sua interpretação mais honesta.

Segundo - o cristianismo é uma fé ancorada na história e nos fatos, não em mitos abstratos. Ele está fundamentado em eventos verificáveis, ocorridos em lugares reais e envolvendo pessoas reais. A confiabilidade dos manuscritos bíblicos, o testemunho arqueológico sobre o mundo bíblico e o cumprimento de profecias apontam para uma tradição que não depende de fé cega, mas de evidências consistentes. Diferente de sistemas religiosos baseados apenas em visões místicas ou revelações privadas, o cristianismo convida ao exame racional de suas bases históricas.

Terceiro, e mais decisivo, está a singularidade de Jesus Cristo. Enquanto religiões como o hinduísmo e o budismo tentam diagnosticar a condição humana e oferecer técnicas para transcendê-la, Jesus faz algo radicalmente diferente: Ele não apenas ensina sobre Deus, Ele é Deus feito homem. Ele não apenas indica um caminho para a verdade; Ele afirma ser a própria Verdade encarnada. Ele não se limita a explicar o sofrimento; Ele entra nele, carrega-o sobre si e o derrota por meio de sua morte e ressurreição. Nenhum outro líder religioso fez uma reivindicação tão ousada e a sustentou com um evento tão transformador quanto a vitória sobre a morte.

Por fim, o cristianismo é único porque redefine completamente o conceito de salvação. Em praticamente todas as outras religiões, a libertação espiritual depende do esforço humano, seja por meio de obras, disciplina, iluminação ou rituais. No cristianismo, a salvação é um dom da graça de Deus, recebido pela fé. Isso não diminui a responsabilidade moral, mas coloca a iniciativa salvadora nas mãos de Deus, que veio buscar e restaurar aquilo que estava perdido.

Portanto, o cristianismo não é apenas uma entre muitas opções espirituais equivalentes. Ele se apresenta como a resposta verdadeira de Deus ao problema humano; uma resposta histórica, racionalmente defensável e pessoalmente transformadora, centrada na pessoa e obra de Jesus Cristo.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Como ser o sal da terra e a luz do mundo?

 


Num mundo marcado pelo pluralismo religioso, pelo comodismo e por um individualismo cada vez mais acentuado, as palavras de Jesus : “- Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo”; permanecem tão desafiadoras quanto no dia em que foram pronunciadas. Elas não são um elogio acomodador, mas um chamado exigente à responsabilidade, à coerência e ao testemunho.

Ser “sal da terra” implica ter um sabor diferente, uma presença que preserva, transforma e dá sentido. O sal, no tempo de Jesus, não servia apenas para temperar, mas também para conservar e impedir a corrupção. Assim também o cristão é chamado a ser uma presença que impede a deterioração moral e espiritual da sociedade, não por imposição ou moralismo, mas pelo testemunho de uma vida íntegra, justa e compassiva. Em meio a uma cultura que muitas vezes reduz o sentido da vida ao prazer imediato, ao consumo e à satisfação dos desejos carnais, o “sal” do Reino se manifesta na capacidade de viver com propósito, disciplina interior e abertura ao transcendente.

Ser sal, portanto, significa influenciar positivamente o ambiente ao nosso redor: nas relações familiares, no trabalho, na política, na educação, na economia e na cultura. Significa promover a justiça onde há exploração, defender a dignidade humana onde ela é ameaçada, e semear esperança onde reina o desânimo. O sal não faz barulho — age silenciosamente — assim como o bem praticado com humildade transforma corações e estruturas ao longo do tempo.

Mas Jesus também nos chama a ser “luz do mundo”. A luz não existe para si mesma; ela ilumina, revela caminhos, dissipa trevas. Num contexto de confusão moral e espiritual, onde verdades são relativizadas e valores são frequentemente invertidos, ser luz significa viver de tal maneira que nossa própria vida se torne um referencial. Não se trata de perfeição, mas de autenticidade: coerência entre fé e prática, entre o que professamos e o que vivemos.

Ser luz é ter a coragem de testemunhar o bem mesmo quando ele é impopular; é cultivar a verdade quando a mentira parece mais vantajosa; é escolher o amor quando o egoísmo é a norma. É também irradiar alegria e paz, não como negação das dificuldades, mas como fruto de uma esperança enraizada em Deus.

Num mundo plural, ser sal e luz não significa rejeitar quem pensa diferente, mas dialogar com respeito, amar sem discriminar e servir sem esperar reconhecimento. A verdadeira luz atrai, não ofusca; o verdadeiro sal transforma, não agride.

Assim, ao vivermos os valores do Reino: amor, justiça, misericórdia, humildade, fidelidade e serviço; tornamo-nos instrumentos através dos quais Deus continua a agir no mundo. Nossa presença pode tornar a vida mais significativa para aqueles ao nosso redor, inspirando outros a buscar algo maior do que si mesmos.

No fim, ser sal da terra e luz do mundo é assumir que nossa fé não é apenas uma questão privada, mas uma missão pública: fazer com que, ao verem nossas boas obras, as pessoas glorifiquem a Deus e encontrem, através de nós, um vislumbre do Seu amor e da Sua verdade.

Como estar preparado para o Tempo do Fim


 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Como reavivar a igreja do século XXI

 

Se você tem acompanhado o cenário evangélico brasileiro nas últimas décadas, provavelmente sente uma inquietação: há um crescimento numérico impressionante, mas uma sensação difusa de que algo essencial está se perdendo. Igrejas cheias, mas discípulos rasos. Cultos vibrantes, mas vidas transformadas em ritmo mais lento. Promessas de milagres, mas carências de caráter.

Não é apenas uma impressão subjetiva. Os dados e análises confirmam: estamos diante de um esvaziamento de conteúdo que atravessa denominações. Das históricas às pentecostais, muitas comunidades trocaram a profundidade doutrinária por um pragmatismo que prioriza números sobre transformação. 

Como resultado, um contingente crescente de crentes "desigrejados" - pessoas que mantêm a fé, mas abandonaram a comunidade institucional. O Censo do IBGE nos revela o que nossos círculos de relacionamento já sinalizavam: há fome por autenticidade que não está sendo saciada nos moldes atuais.

Diante deste quadro, surge a pergunta inevitável: como reagir a tal situação ou que rumo tomar para que a igreja ou comunidade de crentes volte a ser viva e fervorosa como em outras épocas? 

 A Centralidade das Escrituras como Norma Crítica

A primeira revolução necessária é uma redescoberta da Bíblia não como instrumento de apoio a projetos humanos, mas como lente crítica sobre nossa própria prática eclesiástica. Isso significa:

  • Pregação expositiva que respeite o texto em seu contexto, em vez de usá-lo como pretexto para ideias preconcebidas

  • Escola bíblica séria que forme crentes capazes de "examinar as Escrituras" (Atos 17:11) por si mesmos

  • Submissão coletiva à autoridade bíblica, inclusive quando ela confronta nossos modelos de "sucesso" ministerial

Quando a Palavra recupera seu lugar central, os critérios de avaliação mudam: não contamos apenas cadeiras ocupadas, mas vidas conformadas à imagem de Cristo.

A Comunidade como Espaço de Cruciformidade

Este talvez seja o ponto mais urgente: recuperar a eclesiologia do Novo Testamento, onde a igreja é primariamente comunidade (koinonia), não evento ou organização. Isso implica:

  • Reduzir o palco e ampliar a mesa - menos espetáculo, mais conversa significativa; menos estrelato pastoral, mais mutualidade

  • Valorizar as relações horizontais - onde "uns aos outros" não seja apenas figura de retórica, mas prática cotidiana

  • Criar espaços para vulnerabilidade - onde máscaras possam cair sem medo de julgamento

  • Restaurar o discipulado relacional - processo lento e paciente, incompatível com produção em massa

É na comunidade autêntica que a "prosperidade" ganha novo significado: não como acumulação individual, mas como suficiência compartilhada. Não como bênção a ser consumida, mas como recurso para servir.

Considerações Finais:

O fenômeno dos desigrejados não é necessariamente negativo - pode ser um grito profético por uma igreja mais autêntica. Mas o individualismo espiritual não é solução; é apenas outra face da mesma moeda que prioriza a experiência privada sobre o corpo coletivo.

A verdadeira renovação será aquela que reconecta a profundidade espiritual com a comunidade institucional. Uma renovação do formato ou uma reinvenção da comunidade cristã onde:

  • A liturgia seja significativa - conectando tradição e contemporaneidade

  • A participação seja substantiva - todos têm dons para contribuir

  • A missão seja integral - evangelismo e justiça social como duas asas da mesma ave

  • A formação seja intencional - discipulado como processo de longo prazo

A profecia da mornidão espiritual (Apoc.3:16) não é sentença de morte, mas diagnóstico amoroso. E todo diagnóstico pressupõe possibilidade de tratamento. O remédio pode ser menos glamouroso do que esperamos: menos eventos espetaculares, mais encontros simples ao redor da Palavra; menos campanhas, mais consistência no discipulado; menos celebridades eclesiásticas, mais irmãos e irmãs caminhando juntos.

Como lembra o teólogo John Stott em "A Missão Cristã no Mundo Moderno", "a igreja cresce em qualidade para crescer em quantidade". A reversão possível exige coragem para priorizar profundidade sobre expansão, discipulado sobre ativismo, e cruciformidade sobre prosperidade. 

A igreja que queremos reavivar talvez precise primeiro morrer para certos modelos que idolatramos, para ressuscitar na simplicidade do primeiro amor. O caminho é estreito, mas é nele que encontraremos não apenas uma igreja reavivada, mas um Evangelho redescoberto - tão antigo quanto as Escrituras, tão novo quanto cada geração que o abraça com autenticidade.

A pergunta que fica não é se há esperança, mas se temos coragem para o caminho da cruz - que passa necessariamente pelo caminho da comunidade.



quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Caso do cão Orelha levanta a questão de como tratamos os animais que comemos

 


O recente caso do cão comunitário Orelha, brutalmente agredido por adolescentes na Praia Brava, em Florianópolis, gerou comoção nacional e reacendeu debates sobre o respeito aos animais. Orelha, conhecido e cuidado pela comunidade local, sofreu ferimentos graves e não resistiu, mesmo após ser socorrido por moradores. As investigações apontaram a participação de adolescentes no crime, resultando em pedidos de internação e indiciamento de adultos por coação de testemunhas .

Esse episódio evidencia a empatia seletiva que muitas vezes direcionamos aos animais. Enquanto a sociedade se mobiliza diante de casos de maus-tratos a cães e gatos, frequentemente negligenciamos o sofrimento de bilhões de animais criados para consumo humano. Esses animais, como bois, porcos e galinhas, são seres sencientes, capazes de sentir dor e medo, mas muitas vezes são submetidos a condições cruéis em fazendas industriais .

A legislação brasileira prevê práticas de abate humanitário, que incluem a insensibilização prévia dos animais para minimizar o sofrimento . No entanto, a implementação dessas práticas nem sempre é eficaz, e muitos animais ainda enfrentam condições degradantes. Organizações como a Animal Equality denunciam as falhas no sistema e promovem campanhas para conscientizar a população sobre o bem-estar animal .

Os dados reforçam a gravidade da situação. Em 2025, o Brasil registrou 4.919 casos de maus-tratos a animais, um aumento de 1.400% em relação a 2021, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) . Isso equivale a uma média de 13 ocorrências por dia . Embora esses números incluam principalmente cães e gatos, eles refletem uma cultura mais ampla de desrespeito à vida animal. Saiba mais <aqui>.

A comoção pelo caso de Orelha deve nos levar a refletir sobre o tratamento que dispensamos a todos os animais. É necessário questionar se nossa empatia está limitada a animais de estimação ou se estamos dispostos a estendê-la a todos os seres sencientes. Adotar uma postura mais coerente em relação aos direitos dos animais implica repensar hábitos de consumo e exigir práticas mais éticas na produção de alimentos.

Educação e conscientização: Informar a população sobre as condições enfrentadas pelos animais de produção pode incentivar escolhas alimentares mais éticas. Incentivo a dietas baseadas em vegetais: Adotar uma alimentação que reduza ou elimine o consumo de produtos de origem animal pode diminuir significativamente a demanda por práticas cruéis.

O caso de Orelha serve como um espelho para nossa sociedade, refletindo a necessidade de uma ética mais abrangente que reconheça o valor de todas as formas de vida. Ao estender nossa compaixão além dos animais de estimação, podemos construir uma cultura que respeite verdadeiramente os direitos e o bem-estar animal. Em suma, o caso de Orelha é um chamado para ampliarmos nossa compaixão e reconsiderarmos a forma como tratamos todos os animais, não apenas aqueles que fazem parte do nosso convívio diário.