segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A Soberania de Deus e o Mal no mundo

 


A concepção determinista segundo a qual Deus determina absolutamente tudo o que ocorre,  tanto o bem quanto o mal, é bastante comum em alguns círculos cristãos. Nessa visão, tragédias, doenças, violências e sofrimentos seriam sempre expressão direta da vontade divina ou parte de um propósito secreto e imutável de Deus para a vida de cada pessoa. No entanto, quando analisamos o testemunho bíblico de forma mais ampla, especialmente à luz do tema do grande conflito entre o bem e o mal, essa interpretação se mostra limitada e, em muitos aspectos, inconsistente com o caráter de Deus revelado nas Escrituras.

A Bíblia apresenta Deus como soberano, mas essa soberania não se expressa por meio de um determinismo absoluto. Pelo contrário, Deus escolheu criar seres livres, capazes de amar, obedecer ou rebelar-se. Essa liberdade implica riscos reais. Desde a origem do mal com Lúcifer (Is 14:12–15; Ez 28:12–17), fica claro que Deus não é o autor do mal, nem o desejou. A rebelião angelical não foi um ato deliberado de Deus, mas o resultado do mau uso da liberdade concedida. Se atribuirmos a Deus cada mal que Ele permite, seríamos forçados a concluir que a própria rebelião de Satanás foi planejada por Ele — algo que contradiz frontalmente textos como Tiago 1:13–17, que afirmam que Deus não tenta ninguém para o mal.

A distinção bíblica entre vontade permissiva e vontade ideal de Deus é essencial nesse debate. Um exemplo clássico é o pedido de Israel por um rei. Em 1 Samuel 8, o povo insiste em ter um monarca “como todas as nações”. Deus deixa claro a Samuel que esse pedido não era do Seu agrado, pois representava a rejeição de Sua liderança direta (1Sm 8:7). Ainda assim, Deus permite que Israel tenha um rei, advertindo-os das consequências. Esse episódio demonstra que nem tudo o que Deus permite corresponde ao que Ele deseja ou aprova.

Esse princípio se aplica também ao sofrimento humano. A Bíblia não ensina que Deus deseje doenças, tragédias ou mortes prematuras para cumprir propósitos ocultos. Pelo contrário, Jesus revelou um Deus que cura, restaura e se compadece. Quando confrontado com a ideia de que uma tragédia específica era resultado direto do pecado individual, Cristo rejeitou essa lógica simplista (Lc 13:1–5; Jo 9:1–3). O mundo caído está sujeito a forças diversas: a ação de Satanás (Jo 10:10; 1Pe 5:8), o livre-arbítrio humano (Dt 30:19; Gl 6:7) e até elementos de contingência e acaso (“tempo e acaso sobrevêm a todos”, Ec 9:11).

Isso não significa que Deus esteja ausente ou impotente diante do mal. Muitas vezes, Ele limita, neutraliza ou reverte os efeitos da ação maligna. No episódio de Balaão, por exemplo, Deus não desejava amaldiçoar Israel, e transformou a intenção perversa em bênção (Nm 22–24; Nm 23:8,20). Em outras situações, Deus converte tragédias em oportunidades de revelação de Sua glória, como na ressurreição de Lázaro (Jo 11) ou da filha de Jairo (Mc 5:35–43). Contudo, isso não implica que fosse Seu propósito original que essas pessoas morressem ou sofressem; antes, Ele age dentro da realidade do mal para produzir redenção.

É verdade que a Bíblia também apresenta momentos em que Deus intervém trazendo juízo e destruição, como no dilúvio (Gn 6–9), em Sodoma e Gomorra (Gn 19) ou nas pragas do Egito (Êx 7–12). Esses eventos, porém, são retratados como atos excepcionais de juízo diante de uma corrupção extrema e persistente, e não como o modo normal de Deus agir no mundo. Mesmo nesses casos, a Escritura ressalta a paciência divina e o desejo de arrependimento antes da execução do juízo (Gn 6:3; Ez 18:23; 2Pe 3:9).

Assim, a Bíblia apresenta um dinamismo de fatores atuando na história: a soberania de Deus, a liberdade humana, a atuação de Satanás e as consequências naturais de um mundo caído. Deus continua soberano, mas Ele condiciona o exercício dessa soberania para preservar a liberdade moral necessária à existência do amor e à resolução do grande conflito. Como afirma Ellen G. White em harmonia com esse ensino bíblico, “Deus nunca força a vontade ou a consciência”.

Portanto, não podemos afirmar que toda dor, enfermidade ou tragédia seja a realização direta da vontade de Deus. Muitas coisas Ele permite sem aprovar; outras Ele impede; e, em todos os casos, Ele trabalha para redimir, restaurar e, por fim, erradicar definitivamente o mal (Ap 21:4). Essa compreensão preserva tanto a soberania divina quanto o Seu caráter de amor, justiça e bondade, revelado plenamente em Jesus Cristo.

Um comentário:

  1. Perfeito!Deus nos criou como seres livres e racionais.Do contrário,seríamos marionetes nas mãos de um Deus tirano e determinista.Pois ele seria também o autor do mal,e seu caráter seria viés de dúvida e questionamento.

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