Entre as muitas faces pelas quais Jesus de Nazaré tem sido contemplado ao longo da história, poucas figuras foram tão estudadas, interpretadas e debatidas. Há uma expressão histórica de Jesus, que o vê como um personagem do primeiro século, um profeta judeu inserido em seu contexto cultural e político, cuja vida e morte marcaram o curso da civilização ocidental. Há também uma expressão filosófica, que o apresenta como um grande mestre moral, um sábio que ensinou princípios elevados sobre amor, justiça, humildade e perdão. Existe ainda uma expressão social de Jesus, que o destaca como defensor dos pobres, dos marginalizados e dos oprimidos, um inspirador de movimentos de transformação ética e humanitária.
Todas essas leituras reconhecem algo valioso em Cristo. Elas veem nele bondade, coerência, sabedoria e compaixão. Contudo, por mais nobres que sejam, essas perspectivas permanecem incompletas. Elas admiram Jesus, mas não necessariamente o reconhecem como aquele que pode redimir a vida, dar novo significado à existência, trazer esperança eterna e produzir um verdadeiro renascimento espiritual.
É precisamente aqui que se destaca a expressão evangélica de Jesus. No testemunho das Escrituras, Ele não é apenas um exemplo, um líder espiritual ou um reformador moral — Ele é o único Salvador. O apóstolo João é categórico: “Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida” (1 João 5:12). O próprio Cristo declara: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14:6). Na perspectiva do evangelho, Jesus não é uma entre muitas vias de sentido ou transcendência; Ele é a própria porta da salvação.
Essa afirmação inevitavelmente se choca com outras visões contemporâneas sobre Jesus — religiosas, espirituais ou seculares — que o apreciam, mas relativizam sua singularidade. Para muitos, Ele é um símbolo inspirador, mas não o Senhor vivo que transforma corações. Essa tensão sempre existiu, mas torna-se ainda mais aguda em uma era pluralista, onde a ideia de verdade exclusiva é frequentemente rejeitada.
Paralelamente a isso, a própria Bíblia adverte sobre um fenômeno interno ao cristianismo: a existência de cristãos mornos. São aqueles que, talvez influenciados por outras tradições, filosofias ou pelo espírito do tempo, perderam o fervor do evangelho. Eles ainda se identificam como cristãos, frequentam igrejas e falam de Jesus, mas já não ardem em paixão por Ele. Para muitos, o cristianismo tornou-se mais uma fonte de apoio emocional, social ou até financeiro, do que uma entrega radical ao Senhorio de Cristo. A fé, nesses casos, adapta-se ao conforto do “presente século” em vez de confrontá-lo.
Contra essa acomodação, ressoa o chamado bíblico ao despertar do primeiro amor — a fé viva, vibrante e primitiva que caracterizou os primeiros discípulos. A Escritura fala de um remanescente fiel nos últimos dias, um povo que não se conforma com a mediocridade espiritual, mas busca uma experiência profunda e genuína com Deus.
Vivemos, segundo a perspectiva bíblica, no limiar do maior acontecimento desde a Criação: a volta de Jesus em glória. Diante dessa realidade, a Palavra convoca: “Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará” (Efésios 5:14). Não é um chamado ao medo, mas à vigilância, à renovação e à esperança.
Assim, a expressão evangélica de Jesus permanece decisiva. Nela, Ele não é apenas admirado — Ele é recebido como Salvador, seguido como Senhor e aguardado como Rei. E é nesse encontro transformador com Cristo que a igreja é chamada a despertar, reavivar sua fé e preparar-se para encontrá-lo face a face.

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