A afirmação de Jesus em Mateus 16:24–25 — “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” — é profunda e, ao mesmo tempo, desconfortável, porque toca no centro da experiência humana: a tensão entre o eu que desejo e o eu que Deus chama a ser.
Negar a si mesmo não significa odiar a própria existência, nem apagar a personalidade, nem deixar de ser quem somos. Trata-se de renunciar ao eu distorcido — aquele moldado pelo egoísmo, pela autossuficiência e pelos impulsos que nos afastam de Deus. Essa “negação” é, paradoxalmente, o caminho para reencontrar o verdadeiro eu, aquele que só floresce em comunhão com o Criador.
1. A natureza humana ferida precisa ser redirecionada
A Bíblia reconhece que a natureza humana, embora criada boa, foi afetada pelo pecado. Ela não é essencialmente má, mas está inclinada ao ego, ao orgulho e ao desejo de governar a própria vida sem Deus.
Por isso, negar-se não é reprimir a humanidade, mas sujeitar os impulsos desordenados que nos afastam da vida verdadeira. Não é matar a alma, mas curar o coração.
Jesus não chama o discípulo a sufocar o que é humano, mas a permitir que Deus restaure aquilo que está distorcido.
2. O discipulado exige escolhas que moldam o caráter
No caminho com Cristo, inevitavelmente surgem valores, hábitos e prioridades que se chocam com os do Reino.
Há coisas que precisamos deixar para trás não porque são simplesmente proibidas, mas porque não cabem mais na nova vida. Outras não são necessariamente erradas, mas se tornam pesos que retardam o crescimento espiritual.
Assim, negar-se também é discernir: o que em mim favorece o Reino e o que me afasta dele?
É como um atleta que se priva não para sofrer, mas para estar livre e apto para o propósito que abraçou.
3. O pecado não é a nossa identidade — mas precisa ser renunciado
O pecado se enraizou tão profundamente na experiência humana que, muitas vezes, confunde-se com “quem somos”. Mas o evangelho insiste: pecado é invasor, não essência.
Por isso, negar-se a si mesmo não é negar a identidade, e sim recusar que o pecado defina nossos desejos, decisões e sonhos.
Deixar de seguir as vontades antigas não é deixar de ser quem somos — é permitir que Deus nos revele quem deveríamos ser desde o princípio.
4. A negação é, na verdade, um ato de libertação
Jesus não propõe uma vida mutilada, mas uma vida resgatada. Quando Ele diz que quem perde sua vida por causa d’Ele a encontrará, está revelando um paradoxo espiritual:
só quando abrimos mão do controle é que encontramos a vida plena; só quando deixamos morrer o ego antigo é que o eu verdadeiro pode nascer.
Negar-se é um caminho de liberdade, porque nos solta das amarras do orgulho, da ansiedade, da culpa e do peso de ter que construir sozinho o próprio sentido.

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