quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Como estar preparado para a volta de Jesus?


 Há muitos cristãos que caminham há décadas dentro de uma denominação evangélica. Conhecem a Bíblia, a doutrina, os hinos, a linguagem da fé. Já viveram avivamentos, crises, debates teológicos e mudanças na igreja. E, ainda assim, em algum momento silencioso da alma, surge uma inquietação difícil de ignorar: “Falta algo.” Não falta informação, não falta atividade religiosa, não falta convicção doutrinária. O que parece faltar é proximidade com a essência do evangelho.

Quando a prática religiosa se distancia da essência

Com o tempo, é possível confundir fidelidade ao evangelho com enquadramento a um sistema religioso. A fé vai se organizando em agendas, posições, defesas e identidades denominacionais. Nada disso é, em si, errado. O problema surge quando:

  • A ortodoxia cresce, mas o amor esfria

  • A vigilância escatológica substitui a compaixão diária

  • A espera pela volta de Cristo não se traduz em uma vida parecida com a de Cristo

Jesus colocou a realidade do evangelho como uma realidade prática presente, que se traduz e ética, altruísmo, sinceridade, isto é  viver o Reino agora

Por outro lado, sentir-se distante da essência do evangelho não significa abandono da fé, mas um chamado à centralidade. Muitas vezes, o que se perdeu não foi Jesus, mas a simplicidade do caminhar com Ele.

A essência do evangelho não está em saber mais, mas em:

  • Amar mais profundamente

  • Perdoar com mais sinceridade

  • Viver com mais humildade

  • Servir com menos necessidade de reconhecimento

O evangelho é menos sobre estar pronto para o fim e mais sobre ser fiel no caminho.

O preparo não é um estado, é uma relação

Talvez o erro esteja na ideia de “preparo pleno”. A Bíblia não apresenta o preparo como um ponto de chegada, mas como uma permanência:

“Permanecei em mim.”

Estar preparado não é sentir-se completo, mas estar conectado.
Não é ausência de falhas, mas presença de arrependimento genuíno.
Não é segurança em si mesmo, mas dependência contínua de Cristo.

Os discípulos nunca estiveram “prontos” no sentido ideal — e ainda assim caminharam com Jesus.

Neste aspecto a expectativa da volta de Cristo não deveria gerar paralisia espiritual nem culpa constante, mas urgência em viver o evangelho em sua forma mais pura: amar a Deus acima de tudo e ao próximo como a si mesmo.


Conclusão: quando a inquietação é graça

Talvez o sentimento de distância seja, na verdade, um convite gracioso  para voltar ao evangelho simples, para trocar desempenho por intimidade, para deixar menos espaço para a religião e mais para Cristo.

Sentir que falta algo pode ser doloroso, mas também pode ser santo. É sinal de que o coração ainda não se conformou com uma religiosidade ritualista ou mecânica. A essência do evangelho não se perde de uma vez — ela vai sendo substituída aos poucos, até que o Espírito nos desperta novamente.

Talvez não exista um momento em que diremos: “Agora estou plenamente preparado.”
Mas existe a possibilidade diária de dizer:
“Hoje, quero viver mais perto do coração de Jesus.”

E, no fim, talvez seja exatamente isso que significa estar preparado.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O Evangelho e a polarização política!

 


O cenário político contemporâneo tem sido marcado por forte polarização, discursos inflamados e tentativas de reduzir a realidade a dois polos antagônicos: progressistas versus conservadores. Nesse ambiente, muitos cristãos, especialmente no meio evangélico, acabam absorvendo essa lógica binária e, não raro, procuram associar o confronto político-ideológico atual às profecias bíblicas, chegando a identificar tais disputas como uma antecipação direta do Armagedom apocalíptico. Essa leitura, porém, revela sérias incongruências quando confrontada com os ensinos de Jesus e com uma análise mais fiel da verdade bíblica.

Jesus não se alinhou a projetos políticos nem a ideologias nacionais. Viveu em um contexto profundamente politizado e opressivo, sob o domínio romano, onde existiam grupos claramente polarizados: zelotes revolucionários, fariseus legalistas, saduceus alinhados ao poder e herodianos colaboradores do império. Ainda assim, Cristo recusou-se a ser instrumentalizado por qualquer dessas agendas. Sua afirmação — “O meu reino não é deste mundo” (João 18:36) — não foi uma fuga da realidade, mas uma declaração clara de que o Reino de Deus opera em outra lógica, superior e transcendente aos jogos de poder humano.

A posição política do cristão, à luz do evangelho, não pode ser confundida com militância ideológica irrestrita nem com nacionalismos religiosos. Quando setores evangélicos tentam sacralizar projetos políticos específicos, transformando líderes, partidos ou nações em instrumentos diretos da vontade divina, incorrem no risco de idolatria e de distorção das Escrituras. O Armagedom bíblico não é um embate entre correntes políticas modernas, mas o desfecho de um conflito espiritual muito mais profundo, que envolve a fidelidade a Deus em oposição aos sistemas humanos que se levantam contra Sua soberania.

A verdade bíblica suplanta o debate político atual justamente porque não se deixa aprisionar por ele. Enquanto a política opera, em grande parte, por interesses particulares, alianças circunstanciais e narrativas convenientes, a doutrina de Jesus chama à coerência moral, à justiça, à misericórdia e à humildade. O cristão é chamado a ser “sal da terra” e “luz do mundo”, não ecoando slogans ou demonizando adversários, mas testemunhando um caráter moldado pelo evangelho, mesmo em meio a um mundo dividido.

Isso não significa indiferença social ou alienação. O cristão pode e deve exercer sua cidadania com responsabilidade, consciência crítica e compromisso ético. Contudo, sua esperança não está na vitória de um espectro político sobre outro, nem na consolidação de um projeto de poder terreno. A história humana, marcada por ciclos de dominação e queda, caminha para um encerramento que não será decidido nas urnas nem nos parlamentos, mas pela segunda vinda de Jesus.

Em tempos de polarização extrema, a fidelidade a Cristo exige discernimento para não confundir o Reino de Deus com reinos humanos. A missão da igreja não é vencer debates ideológicos, mas anunciar uma verdade que transcende todos eles: o governo final de Deus, justo e eterno, diante do qual todo poder humano, progressista ou conservador, se mostrará limitado e passageiro.

domingo, 4 de janeiro de 2026

O Último Império

 

Vivemos tempos de rápidas transformações geopolíticas, culturais e espirituais. Para muitos cristãos que interpretam as profecias bíblicas em perspectiva historicista, especialmente dentro da tradição adventista, os acontecimentos do mundo contemporâneo não são meros fatos isolados: eles se inserem num grande desígnio profético que culmina na segunda vinda de Jesus Cristo. Nesse quadro, a obra O Último Império (Vanderlei Dorneles), publicada pela Casa Publicadora Brasileira (CPB), destaca os Estados Unidos como a última grande potência hegemônica antes do retorno de Cristo, um papel confirmado por muitos escritos de Ellen G. White e evidenciado pelas tensões e eventos atuais no cenário internacional.

O papel dos EUA nas profecias dos últimos dias

Nas páginas de O Último Império, Dorneles resgata a interpretação bíblica de que uma nação — simbolizada de forma semelhante à “besta que emerge da terra” em Apocalipse 13 — terá papel central nos últimos acontecimentos mundiais, influenciando outras nações e exercendo liderança decisiva em questões civis e religiosas. Essa visão parte da interpretação historicista das profecias de Daniel e Apocalipse, na qual os Estados Unidos surgem como potência global com influência marcante sobre os destinos do planeta nas décadas finais da história humana.

Os escritos de Ellen G. White  apontam onde estamos no tempo, enfatizam que os eventos mundiais recentes são sinais de que estamos na “última crise da Terra”: “O mundo está em agitação, as calamidades por terra e mar, o estado incerto da sociedade, os alarmes de guerra, são presságios de que grandes mudanças estão para acontecer na Terra” — e que as profecias estão se cumprindo de forma visível diante de nós. Confira <aqui>.

Em Testemunhos Seletos, Ellen White afirma que nações estrangeiras seguirão o exemplo dos Estados Unidos, especialmente em questões de influência religiosa e civil — uma referência ao modo como a legislação e as pressões sociais adotadas nos EUA podem se tornar modelo para outras nações no período final. (Testemunhos Seletos, vol. 3, pág. 46).

Sinais contemporâneos que corroboram esse papel hegemônico

Enquanto alguns já consideram os EUA como uma nação em decadência, fadada a dar  lugar a outras potências emergentes como a China, surge uma reviravolta  nos acontecimentos provocados pela nova doutrina estadunidense para assuntos estratégicos. 

Esse quadro é relevante não apenas por alguns fatos geopolítico isolados, mas como um sinal da projeção de poder dos EUA em nível mundial — em que decisões e ações dessa nação repercutem diretamente na soberania de outras e reconfiguram alianças, decisões econômicas e políticas regionais e globais. A rapidez e a determinação com que os Estados Unidos executaram ações no Irã e Venezuela  têm sido tema dominante nas manchetes internacionais. 

Para grande parte dos intérpretes proféticos adventistas, isso não é mera coincidência, mas um indicativo de que a nação que emergiu como líder global após a Segunda Guerra Mundial continua a exercer influência decisiva nos eventos que antecedem o fim dos tempos. As pressões econômicas, disputas militares e diplomáticas, e as alianças estratégicas moldam um cenário que muitos entendem como parte das “sinais dos tempos” mencionados nas Escrituras — fenômenos que indicam que a consumação da história está se aproximando.

Ellen White e a urgência da preparação espiritual

Ellen G. White nunca ofereceu datas específicas para a vinda de Cristo — ela advertiu repetidas vezes que “o tempo exato da vinda de Cristo é um mistério que Deus guardou” — mas enfatizou que os sinais dos tempos estão se cumprindo rapidamente e que precisamos estar preparados. Confira <aqui>.

Em Evangelismo, ela escreve:

“As profecias que o grande EU SOU tem dado em Sua Palavra... dizem-nos onde estamos hoje na sucessão dos séculos, e o que se pode esperar no tempo por vir.” Confira <aqui>.

Essa ênfase na conexão entre profecias e acontecimentos mundiais, como tensões entre grandes potências, crises econômicas e conflitos geopolíticos, confirma que estamos vivendo um período que  está diretamente ligado aos “últimos dias” mencionados nas Escrituras.

Reflexão final

Ao ver potências globais em conflito, líderes sendo depostos e realinhamentos geopolíticos acontecendo em escala acelerada, é natural que surja em muitos cristãos o desejo de compreender o significado desses eventos à luz da profecia bíblica. A interpretação historicista, reforçada em obras como O Último Império e nos escritos de Ellen G. White, aponta os Estados Unidos como um eixo de influência relevante nos tempos finais — um papel que, à medida que os eventos se desenrolam, continua a ser objeto de reflexão, debate e estudo.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Qual a grande expectativa do ano novo?

 


Ao olharmos para o horizonte de 2026, é difícil alimentar ilusões de um mundo em paz. Os fatos em curso falam por si. Conflitos armados que já devastam regiões inteiras não apenas persistem, como se intensificam. Tensões geopolíticas antes contidas agora ganham contornos mais explícitos e perigosos: o impasse entre China e Taiwan permanece como um barril de pólvora; a relação entre Estados Unidos e Venezuela segue marcada por atritos,   sanções e instabilidade; no Oriente Médio os conflitos indefinidos apontam para crescente instabilidade,  outras nações, em diferentes continentes, vivem sob o espectro de guerras, golpes, crises humanitárias e deslocamentos em massa.

No campo ambiental, os sinais também são preocupantes. Eventos climáticos extremos tornam-se mais frequentes e intensos, revelando um planeta em desequilíbrio. Secas, enchentes, incêndios e colapsos ecológicos deixam de ser exceções e passam a compor o cotidiano das notícias. Na economia global, o cenário não é mais animador: inflação persistente, endividamento de países, insegurança nos mercados, aumento da desigualdade e fragilidade social corroem a sensação de futuro estável para milhões de pessoas.

Diante desse quadro, falar em “perspectivas alvissareiras” soa quase ingênuo. O mundo parece caminhar não para a pacificação, mas para uma convergência de crises — ambientais, geopolíticas, econômicas e morais. É justamente nesse contexto que a expectativa da volta de Jesus vai se tornando cada vez mais viva para os cristãos ligados na Palavra. Não como escapismo irresponsável, mas como leitura espiritual dos sinais do tempo. Jesus advertiu que ouviríamos falar de guerras e rumores de guerras, que a angústia das nações aumentaria e que o coração de muitos desfaleceria de medo. Esses sinais não produzem alegria em si mesmos, mas despertam vigilância, reflexão e esperança.

Para o cristão, portanto, a maior expectativa para 2026 não está ancorada em acordos políticos frágeis, em promessas econômicas instáveis ou em soluções humanas limitadas. A esperança encontra seu fundamento na promessa da volta de Cristo. É essa promessa que sustenta a fé quando as bases do mundo parecem tremer. É ela que oferece sentido em meio à incerteza, consolo em meio ao caos e direção em meio à confusão.

Esperar a volta de Jesus não significa cruzar os braços diante do sofrimento humano, mas viver com consciência, responsabilidade e fidelidade, sabendo que a história não está à deriva. Para aqueles que aguardam esse evento com alegria, a esperança cristã talvez seja, hoje, a única que não depende das circunstâncias. Enquanto o mundo oferece medo e ansiedade, a promessa do retorno de Cristo oferece uma âncora segura para a alma. E, à medida que os sinais se acumulam, essa expectativa deixa de ser secundária e passa a ocupar o centro da esperança cristã: “Ora, vem, Senhor Jesus.”

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

O Perigo Espiritual das Correntes Orientalistas !

 


No mundo contemporâneo, muitas práticas originárias de tradições espirituais orientais ou da chamada “Nova Era” têm se popularizado no Ocidente sob a aparência de métodos de bem-estar, crescimento pessoal ou relaxamento — como a yoga, certos tipos de meditação, técnicas de respiração e terapias alternativas. À primeira vista, parecem atividades físicas, psicológicas ou de autocuidado inofensivas. Contudo, podem representar um perigo espiritual sutil,  porque não são apenas técnicas neutras, mas estão enraizadas em cosmovisões e tradições religiosas que interagem com entidades e forças espirituais ativas.

Muitas dessas práticas chegam despidas de seu contexto religioso original, apresentadas como simples técnicas para redução do estresse, melhoria da saúde ou desenvolvimento pessoal. A yoga, por exemplo, é frequentemente comercializada como um sistema de exercícios físicos e respiratórios, com benefícios comprovados para flexibilidade, força e relaxamento. No entanto, sua origem e tradição estão profundamente enraizadas no hinduísmo, sendo uma das seis escolas ortodoxas da filosofia hindu.

A palavra "yoga" significa "jugo" ou "união" em sânscrito, referindo-se especificamente à união com a divindade ou consciência universal conforme entendida no hinduísmo. As posturas (ásanas) não são meros exercícios físicos, mas originalmente destinavam-se a preparar o corpo para longos períodos de meditação e abrir os canais energéticos (nadis) para o fluxo da energia espiritual (prana). Cada aspecto da yoga tradicional está impregnado de simbolismo religioso hindu.

Práticas como meditação transcendental, reiki, cristais, astrologia, uso de mandalas, e diversas técnicas da Nova Era frequentemente envolvem:

  • Invocação de entidades ou energias não identificadas com o Deus bíblico

  • Pressupostos panteístas (tudo é Deus) ou monistas (tudo é uno)

  • Abertura a experiências espirituais sem o filtro da revelação bíblica

  • Substituição da dependência de Deus por autossuficiência espiritual

Testemunhos e Consequências Negativas

Autores cristãos que estudam esses temas também ressaltam que, embora o alongamento, a respiração profunda e o relaxamento sejam fisicamente benéficos, a meditação profunda e as práticas contemplativas nessas tradições podem abrir o coração e a mente para realidades espirituais fora da vontade de Deus.

Numerosos testemunhos de ex-praticantes ilustram os perigos espirituais dessas práticas:

Marcy Neumann, em seu livro "Escape from the New Age" (Fuga da Nova Era), relata sua experiência como instrutora de yoga e praticante de meditação transcendental que desenvolveu sintomas de despersonalização, ansiedade extrema e abertura a influências espirituais perturbadoras, das quais só encontrou libertação através do cristianismo.

Laurette Willis: instruída em yoga desde jovem, ela acabou se envolvendo por muitos anos com práticas espirituais e posteriormente se converteu ao cristianismo. Willis afirma que a yoga a levou a um estilo de vida influenciado pela Nova Era e que, depois de 22 anos, ela viu armadilhas espirituais nessas práticas, resultando em sua postura crítica. Saiba mais <aqui>.

A Perspectiva Cristã sobre Corpo e Espírito

A fé cristã valoriza o corpo como templo do Espírito Santo (1 Coríntios 6:19-20) e incentiva o cuidado físico. No entanto, rejeita a separação entre práticas físicas e suas dimensões espirituais. O exercício físico é benéfico (1 Timóteo 4:8), mas deve ser dissociado de sistemas espirituais alternativos.

Alternativas cristãs existem, como:

  • Exercícios físicos secularizados (alongamento, pilates secular, etc.)

  • Meditação bíblica (Salmo 1:2; Josué 1:8)

  • Oração contemplativa centrada em Cristo

  • Práticas de atenção plena (mindfulness) ancoradas na presença de Deus

Discernimento Espiritual Necessário

O cristão é chamado a examinar todas as coisas (1 Tessalonicenses 5:21) à luz das Escrituras. A atração por essas práticas frequentemente surge de legítimas necessidades humanas - paz, saúde, propósito - que encontram resposta completa em Cristo. A espiritualidade cristã oferece relacionamento com um Deus pessoal, em contraste com as experiências impessoais de muitas práticas orientais.

O perigo maior talvez seja o sincretismo: a tentativa de amalgamar cristianismo com elementos espirituais incompatíveis, criando um cristianismo diluído, "à la carte", que perde o poder transformador do evangelho integral.

Conclusão

As práticas espiritualistas orientais e da Nova Era representam um perigo real para o cristão não por seu aspecto físico ou benefícios terapêuticos secundários, mas por suas fundações espirituais alternativas à revelação bíblica. Seu caráter aparentemente inofensivo as torna especialmente enganosas. O caminho cristão convida a um relacionamento transformador com Deus através de Jesus Cristo, mediado pelo Espírito Santo e fundamentado na Palavra - um caminho que satisfaz as profundas necessidades humanas sem comprometer a verdade espiritual. 


sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

A problemática da origem do Natal o invalida?

 


A celebração do Natal, tal como é conhecida atualmente, levanta questionamentos legítimos entre cristãos que buscam fidelidade bíblica e histórica. Um dos principais pontos de debate diz respeito à origem pagã da data e à ausência de registros da celebração do nascimento de Cristo nos primeiros séculos do cristianismo.

De fato, não há qualquer evidência histórica de que os cristãos celebrassem o nascimento de Jesus até o século IV. Os primeiros cristãos davam ênfase quase exclusiva à morte e ressurreição de Cristo, consideradas centrais para a salvação. A fixação do dia 25 de dezembro ocorre somente após a cristianização do Império Romano, quando a igreja passou a absorver e reinterpretar datas e costumes já existentes. Essa data coincidia com festivais pagãos amplamente celebrados, como o Dies Natalis Solis Invicti (nascimento do Sol Invencível) e as Saturnálias, o que reforça a crítica de que o Natal teria raízes sincréticas.

Essa compreensão histórica levou, em diferentes momentos, à rejeição formal do Natal por cristãos que buscavam pureza doutrinária. Um exemplo marcante ocorreu nos Estados Unidos durante o período puritano.

  • Em 1647, o Parlamento inglês, dominado por puritanos, proibiu a celebração do Natal, considerando-a antibíblica e pagã.

  • Na colônia da Baía de Massachusetts, a celebração do Natal foi proibida entre 1659 e 1681, com multas aplicadas a quem fosse flagrado comemorando a data. Para os puritanos, o Natal representava superstição religiosa e excessos morais incompatíveis com o cristianismo bíblico.

Essa postura crítica permanece até hoje em diferentes grupos cristãos. Algumas denominações, como as Testemunhas de Jeová, rejeitam o Natal com base em três argumentos principais: a origem pagã da data, a ausência de mandamento bíblico para celebrá-lo e o caráter comercial e idólatra associado à festa. 

Contudo, a rejeição da data não encerra o debate. Uma questão relevante se impõe: excetuando-se a problemática da data, haveria alguma forma de cristãos tirarem proveito espiritual dessa celebração?

Ressignificação cristã do Natal

Dentro do protestantismo histórico e, de modo particular, no adventismo, encontra-se uma abordagem equilibrada. Ellen G. White reconheceu os problemas associados ao Natal, mas também ofereceu uma perspectiva pastoral interessante. Em um conhecido texto publicado na Review and Herald em 11 de dezembro de 1879, ela afirmou, em essência, que a árvore de Natal poderia ser utilizada como um símbolo pedagógico, desde que despojada de ostentação e usada para direcionar o pensamento a Deus e à benevolência cristã. Ela sugeriu que presentes poderiam ser oferecidos não como expressão de vaidade ou consumo, mas como atos de generosidade, gratidão e apoio à obra missionária.

Essa abordagem não legitima a origem pagã nem o espírito comercial do Natal, mas propõe uma ressignificação consciente, transformando um costume cultural em uma oportunidade de ensino espiritual.

Conclusão

À luz da história, é inegável que o Natal não tem origem bíblica nem apostólica e que sua institucionalização ocorreu séculos após Cristo, em um contexto de forte influência pagã. Por essa razão, a celebração do Natal é vista como imprópria por muitos cristãos. No entanto, o evento não precisa ser proibitivo ou censurado, mesmo porque  não temos o conhecimento de outra data que fosse a verdadeira. Mas pode ser usado não como celebração litúrgica obrigatória, mas como uma oportunidade estratégica de reflexão espiritual, desde que seja completamente desvinculada de seu caráter pagão e comercial.

Assim, o verdadeiro desafio não é simplesmente celebrar ou não celebrar o Natal, mas decidir se Cristo será de fato o centro — não apenas no discurso, mas na prática cristã diária.