Há muitos cristãos que caminham há décadas dentro de uma denominação evangélica. Conhecem a Bíblia, a doutrina, os hinos, a linguagem da fé. Já viveram avivamentos, crises, debates teológicos e mudanças na igreja. E, ainda assim, em algum momento silencioso da alma, surge uma inquietação difícil de ignorar: “Falta algo.” Não falta informação, não falta atividade religiosa, não falta convicção doutrinária. O que parece faltar é proximidade com a essência do evangelho.
Quando a prática religiosa se distancia da essência
Com o tempo, é possível confundir fidelidade ao evangelho com enquadramento a um sistema religioso. A fé vai se organizando em agendas, posições, defesas e identidades denominacionais. Nada disso é, em si, errado. O problema surge quando:
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A ortodoxia cresce, mas o amor esfria
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A vigilância escatológica substitui a compaixão diária
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A espera pela volta de Cristo não se traduz em uma vida parecida com a de Cristo
Jesus colocou a realidade do evangelho como uma realidade prática presente, que se traduz e ética, altruísmo, sinceridade, isto é viver o Reino agora.
Por outro lado, sentir-se distante da essência do evangelho não significa abandono da fé, mas um chamado à centralidade. Muitas vezes, o que se perdeu não foi Jesus, mas a simplicidade do caminhar com Ele.
A essência do evangelho não está em saber mais, mas em:
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Amar mais profundamente
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Perdoar com mais sinceridade
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Viver com mais humildade
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Servir com menos necessidade de reconhecimento
O evangelho é menos sobre estar pronto para o fim e mais sobre ser fiel no caminho.
O preparo não é um estado, é uma relação
Talvez o erro esteja na ideia de “preparo pleno”. A Bíblia não apresenta o preparo como um ponto de chegada, mas como uma permanência:
“Permanecei em mim.”
Estar preparado não é sentir-se completo, mas estar conectado.
Não é ausência de falhas, mas presença de arrependimento genuíno.
Não é segurança em si mesmo, mas dependência contínua de Cristo.
Os discípulos nunca estiveram “prontos” no sentido ideal — e ainda assim caminharam com Jesus.
Neste aspecto a expectativa da volta de Cristo não deveria gerar paralisia espiritual nem culpa constante, mas urgência em viver o evangelho em sua forma mais pura: amar a Deus acima de tudo e ao próximo como a si mesmo.
Conclusão: quando a inquietação é graça
Sentir que falta algo pode ser doloroso, mas também pode ser santo. É sinal de que o coração ainda não se conformou com uma religiosidade ritualista ou mecânica. A essência do evangelho não se perde de uma vez — ela vai sendo substituída aos poucos, até que o Espírito nos desperta novamente.
Talvez não exista um momento em que diremos: “Agora estou plenamente preparado.”
Mas existe a possibilidade diária de dizer:
“Hoje, quero viver mais perto do coração de Jesus.”
E, no fim, talvez seja exatamente isso que significa estar preparado.





