quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O despertar do Peregrino


 

A obra clássica O Peregrino, de John Bunyan, atravessa os séculos como um espelho espiritual no qual cada cristão pode se enxergar. Nela, o personagem principal, chamado Cristão, representa todo aquele que, em algum momento da vida, desperta para a realidade do pecado, da salvação e da necessidade urgente de caminhar em direção ao Reino de Deus. Esse despertar não é confortável, nem simples — é profundo, inquietante e transformador.

Cristão vive inicialmente na “Cidade da Destruição”, símbolo de um mundo afastado de Deus, guiado por valores contrários à verdade divina. Ao perceber o peso que carrega nas costas — imagem clara da culpa e do pecado — ele entende que não pode continuar vivendo como antes. Esse é o ponto crucial do despertar: quando o indivíduo reconhece que a vida que levava, embora aparentemente normal ou aceitável, o conduz à perdição. Assim como Cristão, o cristão dos nossos dias vive cercado por distrações, prazeres imediatos, relativização do pecado e ideologias que negam ou distorcem a verdade bíblica. O mundo moderno, com sua velocidade, entretenimento constante e falsas promessas de felicidade, muitas vezes anestesia a consciência espiritual e tira o foco da realidade celestial.

A decisão de Cristão de abandonar a antiga vida e iniciar sua peregrinação espiritual representa uma ruptura necessária. Seguir a Cristo nunca foi um caminho de comodidade. Pelo contrário, é um percurso marcado por renúncia, escolhas difíceis e oposição. Ao longo da jornada, Cristão enfrenta pântanos, vales sombrios, prisões e inimigos disfarçados de amigos. Essas armadilhas simbolizam os desafios enfrentados pelo cristão hoje: falsos mestres que pregam um evangelho diluído, ideologias que exaltam o “eu” acima de Deus, credos e doutrinas que parecem atraentes, mas que desviam da verdade das Escrituras. São instrumentos sutis que, se não discernidos, conduzem à perdição.

Uma das grandes lições do percurso de Cristão é que o perigo nem sempre se apresenta de forma evidente. Muitas ciladas surgem como atalhos, soluções rápidas ou discursos aparentemente piedosos. Bunyan mostra que nem todo caminho que parece mais fácil vem de Deus. Da mesma forma, o cristão contemporâneo precisa exercer vigilância espiritual, examinando tudo à luz da Palavra, e não apenas pelas emoções, tendências culturais ou popularidade de determinadas ideias.

Outro ensinamento fundamental é a perseverança. Cristão tropeça, cai, erra e, em alguns momentos, quase desiste. No entanto, ele se levanta, se arrepende e continua caminhando. Isso revela que a vida cristã não é marcada pela perfeição, mas pela constância. Permanecer firme até o fim exige dependência de Deus, comunhão, oração e fidelidade à verdade, mesmo quando o caminho é solitário ou doloroso.

Por fim, O Peregrino nos lembra que o destino final vale cada sacrifício. Cristão não perde de vista a Cidade Celestial, e é essa esperança que o sustenta. Em um mundo cada vez mais avesso aos valores do Reino de Deus, o despertar do peregrino hoje passa por recuperar essa visão eterna. Manter os olhos no que é eterno, resistir às distrações passageiras e permanecer fiel, mesmo diante das armadilhas do caminho, é o chamado de todo cristão que decidiu despertar e peregrinar até o fim.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Como sair da mornidão para o calor espiritual?

 


Apocalipse 3:15–16 é um dos textos mais desconfortáveis do Novo Testamento. Não porque seja difícil de entender, mas porque é difícil de aceitar. Jesus não fala ali com incrédulos declarados, nem com perseguidores da fé, mas com uma igreja organizada, ativa e convencida de que estava bem. Ainda assim, Ele a chama de morna  e afirma que esse estado é mais repulsivo do que estar frio.

O cristão morno não é alguém sem religião. É alguém com religião suficiente para manter a consciência tranquila, mas não o bastante para transformar a vida. Ele ora, lê a Bíblia, frequenta a igreja — porém tudo isso acontece sem risco, sem custo e sem dependência real de Deus. A fé se torna um acessório, não o eixo da existência.

O problema é que a mornidão dificilmente é percebida por quem a vive. Assim como Laodiceia, o cristão morno costuma dizer: “estou rico, estou bem, não me falta nada”. Só que, aos olhos de Cristo, falta tudo o que realmente importa: fervor, zelo, sensibilidade espiritual e sede de eternidade.

A transformação começa quando essa ilusão cai. Não é um momento emocional, mas um despertar honesto. A pessoa percebe que sua fé não a confronta mais, não a incomoda mais e não a move mais. Esse reconhecimento é doloroso, mas absolutamente necessário. Sem ele, qualquer tentativa de mudança será apenas maquiagem espiritual.

A partir daí, a virada não acontece com o simples aumento de atividades religiosas. Ir mais à igreja, ler mais capítulos da Bíblia ou fazer cursos teológicos pode até ocupar a agenda, mas não garante fogo no coração. Laodiceia já tinha tudo isso. O que ela não tinha era custo espiritual.

Jesus é direto ao prescrever o caminho: “compra de mim ouro refinado pelo fogo”. Ouro só se purifica no fogo, e fé só se torna viva quando passa por experiências que quebram a autossuficiência. O cristão começa a esquentar quando decide obedecer de forma prática, mesmo quando isso exige renúncia. Quando escolhe servir em vez de apenas assistir. Quando troca conforto por fidelidade. Quando diz “não” a pecados tolerados e “sim” a mudanças reais.

Outro passo essencial é abandonar a ideia de que espiritualidade se mede por quantidade de informação. Conhecimento bíblico sem obediência não aquece — frequentemente esfria ainda mais. O fogo volta quando a Palavra deixa de ser apenas estudada e passa a ser praticada, mesmo nas pequenas decisões diárias. Ler menos, obedecer mais. Orar menos pedidos e mais rendição.

Também é decisivo colocar-se, de forma intencional, em situações que exigem dependência de Deus. A fé esfria em ambientes totalmente controlados, onde nada nos desafia e nada nos custa. Ela aquece quando somos levados além de nossas forças: ao servir pessoas difíceis, ao testemunhar sem garantia de aceitação, ao assumir responsabilidades maiores do que nossa capacidade. É nesses lugares que o Espírito Santo deixa de ser teoria e se torna realidade.

Por fim, o cristão deixa de ser morno quando volta a viver com os olhos na eternidade. A mornidão é filha do excesso de presente e da ausência de futuro eterno. Quando o céu volta a ser real, o conforto perde poder, o pecado perde charme e a fé ganha urgência.

Ser “quente” não é ser perfeito, nem viver em êxtase espiritual constante. É viver uma fé consciente, intencional e custosa. Uma fé que sangra às vezes, mas que também vive. Uma fé que não se contenta em parecer cristã, mas insiste em ser cristã.

E é exatamente esse tipo de fé que Cristo ainda procura — e ainda convida a reacender

Documentário: A natureza após o Dilúvio | Ep. 12 | ORIGENS

 


segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A Soberania de Deus e o Mal no mundo

 


A concepção determinista segundo a qual Deus determina absolutamente tudo o que ocorre,  tanto o bem quanto o mal, é bastante comum em alguns círculos cristãos. Nessa visão, tragédias, doenças, violências e sofrimentos seriam sempre expressão direta da vontade divina ou parte de um propósito secreto e imutável de Deus para a vida de cada pessoa. No entanto, quando analisamos o testemunho bíblico de forma mais ampla, especialmente à luz do tema do grande conflito entre o bem e o mal, essa interpretação se mostra limitada e, em muitos aspectos, inconsistente com o caráter de Deus revelado nas Escrituras.

A Bíblia apresenta Deus como soberano, mas essa soberania não se expressa por meio de um determinismo absoluto. Pelo contrário, Deus escolheu criar seres livres, capazes de amar, obedecer ou rebelar-se. Essa liberdade implica riscos reais. Desde a origem do mal com Lúcifer (Is 14:12–15; Ez 28:12–17), fica claro que Deus não é o autor do mal, nem o desejou. A rebelião angelical não foi um ato deliberado de Deus, mas o resultado do mau uso da liberdade concedida. Se atribuirmos a Deus cada mal que Ele permite, seríamos forçados a concluir que a própria rebelião de Satanás foi planejada por Ele — algo que contradiz frontalmente textos como Tiago 1:13–17, que afirmam que Deus não tenta ninguém para o mal.

A distinção bíblica entre vontade permissiva e vontade ideal de Deus é essencial nesse debate. Um exemplo clássico é o pedido de Israel por um rei. Em 1 Samuel 8, o povo insiste em ter um monarca “como todas as nações”. Deus deixa claro a Samuel que esse pedido não era do Seu agrado, pois representava a rejeição de Sua liderança direta (1Sm 8:7). Ainda assim, Deus permite que Israel tenha um rei, advertindo-os das consequências. Esse episódio demonstra que nem tudo o que Deus permite corresponde ao que Ele deseja ou aprova.

Esse princípio se aplica também ao sofrimento humano. A Bíblia não ensina que Deus deseje doenças, tragédias ou mortes prematuras para cumprir propósitos ocultos. Pelo contrário, Jesus revelou um Deus que cura, restaura e se compadece. Quando confrontado com a ideia de que uma tragédia específica era resultado direto do pecado individual, Cristo rejeitou essa lógica simplista (Lc 13:1–5; Jo 9:1–3). O mundo caído está sujeito a forças diversas: a ação de Satanás (Jo 10:10; 1Pe 5:8), o livre-arbítrio humano (Dt 30:19; Gl 6:7) e até elementos de contingência e acaso (“tempo e acaso sobrevêm a todos”, Ec 9:11).

Isso não significa que Deus esteja ausente ou impotente diante do mal. Muitas vezes, Ele limita, neutraliza ou reverte os efeitos da ação maligna. No episódio de Balaão, por exemplo, Deus não desejava amaldiçoar Israel, e transformou a intenção perversa em bênção (Nm 22–24; Nm 23:8,20). Em outras situações, Deus converte tragédias em oportunidades de revelação de Sua glória, como na ressurreição de Lázaro (Jo 11) ou da filha de Jairo (Mc 5:35–43). Contudo, isso não implica que fosse Seu propósito original que essas pessoas morressem ou sofressem; antes, Ele age dentro da realidade do mal para produzir redenção.

É verdade que a Bíblia também apresenta momentos em que Deus intervém trazendo juízo e destruição, como no dilúvio (Gn 6–9), em Sodoma e Gomorra (Gn 19) ou nas pragas do Egito (Êx 7–12). Esses eventos, porém, são retratados como atos excepcionais de juízo diante de uma corrupção extrema e persistente, e não como o modo normal de Deus agir no mundo. Mesmo nesses casos, a Escritura ressalta a paciência divina e o desejo de arrependimento antes da execução do juízo (Gn 6:3; Ez 18:23; 2Pe 3:9).

Assim, a Bíblia apresenta um dinamismo de fatores atuando na história: a soberania de Deus, a liberdade humana, a atuação de Satanás e as consequências naturais de um mundo caído. Deus continua soberano, mas Ele condiciona o exercício dessa soberania para preservar a liberdade moral necessária à existência do amor e à resolução do grande conflito. Como afirma Ellen G. White em harmonia com esse ensino bíblico, “Deus nunca força a vontade ou a consciência”.

Portanto, não podemos afirmar que toda dor, enfermidade ou tragédia seja a realização direta da vontade de Deus. Muitas coisas Ele permite sem aprovar; outras Ele impede; e, em todos os casos, Ele trabalha para redimir, restaurar e, por fim, erradicar definitivamente o mal (Ap 21:4). Essa compreensão preserva tanto a soberania divina quanto o Seu caráter de amor, justiça e bondade, revelado plenamente em Jesus Cristo.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Considerações sobre a besta do Apocalipse e o fim dos tempos

 



Muitos veem a besta do Apocalipse tendo uma expressão aberta contra Cristo. Mas o caráter dela é definido pela palavra grega anti, que não significa apenas "contra", mas também "aquele que usurpa o lugar de". A besta pode ser ilustrada por como um "fã patológico" que odeia o mestre, mas imita seus trejeitos para tomar o seu lugar.

Na Bíblia encontramos uma  "contrafação do poder de Cristo" pela besta ou anticristo em diversos pontos:

  • A aparência: Enquanto Cristo é o Cordeiro que foi morto e reviveu, a besta surge com uma aparência de cordeiro, mas fala como dragão (Apoc. 5:12-14; 13:11).

  • A ferida mortal: Assim como Cristo ressuscitou, a besta tem uma cabeça degolada que parece reviver, imitando o milagre da ressurreição (Apoc. 13:3).

  • A origem: O Anticristo surge de dentro do seio do cristianismo (apostasia), apresentando-se como uma alternativa religiosa e moral (II Tes. 2:3-4).

A Paz como Instrumento de Engano

O grande perigo do fim dos tempos é o engano espiritual. A besta não se apresentará como um monstro horrendo que todos repudiarão, mas como uma figura capaz de trazer ordem e paz a um mundo em colapso. Por isso, a vigilância sugerida por Cristo não é um chamado ao medo, mas um convite à profundidade espiritual para não sermos confundidos por uma imitação que, embora pareça o verdadeiro "Cordeiro", possui a voz e as intenções do dragão.

Um ponto crucial e frequentemente ignorado é que o cenário final do mundo pode não ser de caos bélico total, mas de uma paz pacificada e unificada pelo Anticristo. Enquanto a compreensão popular foca nas guerras como o sinal do fim, o texto bíblico sugere que o Anticristo surgirá como um "salvador da pátria", propondo um projeto para evitar uma destruição planetária completa.

Essa paz, ainda que paliativa e baseada em um controle rígido (como a impossibilidade de comprar ou vender sem a marca da besta), fará com que o mundo se "maravilhe". É sob esse manto de estabilidade e segurança que a humanidade será levada ao engano, acreditando ter encontrado a solução para seus maiores conflitos.

Nesta perspectiva, o Armagedom deve ser entendido não como um confronto bélico ou militar clássico, mas como um conflito moral e espiritual definitivo. O discernimento será a ferramenta principal, pois a batalha central gira em torno da adoração e da identidade: o selo de Deus contra a marca da besta. Não se trata apenas de quem tem o maior exército, mas de quem detém a verdade no coração.


Quanto falta para o fim?

Guerras e rumores de guerras sempre estiveram presentes na história da humanidade. Mas o que se sobressai nos tempos atuais é o aspecto global. Historicamente, grandes conflitos como a Primeira e a Segunda Guerra Mundial foram eventos majoritariamente eurocêntricos. Mas agora com os conflitos atuais e a possibilidade de uma terceira guerra mundial, as consequências e a escala do conflito serão de fato globais. 

Pela primeira vez na história, vivemos em um mundo onde uma crise pode afetar simultaneamente cada indivíduo no planeta, independentemente de sua fé, ideologia ou localização geográfica. A última pandemia  é um exemplo claro de fatos com abrangência global, onde todos, sem exceção, foram submetidos às mesmas regras e desafios. Assim as guerras atuais e as crises econômicas decorrentes delas afetam o contexto global e não meramente o local ou regional, como foram a maioria das guerras do passado apresentadas nos registros históricos. 

Condizente a isto os fatos referentes ao tempo do fim, registrados no Apocalipse, apontam para algo literalmente universal (Apoc. 13:12,14). Dentro deste contexto surge outra questão consequente, o Senhor Jesus virá também porque o mundo não aguentaria muito tempo - certamente seria destruído pelo próprio homem, pela escala dos conflitos e crises decorrentes.




quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

OneVoice27 – Um Movimento Global para Falar de Jesus em 2027


 A Igreja Adventista do Sétimo Dia está se preparando para uma das maiores iniciativas missionárias de sua história — OneVoice27: Missão para Todos, um movimento global que visa mobilizar membros e comunidades em todo o planeta para proclamar a mensagem de esperança em Jesus Cristo em setembro de 2027.

O que é o OneVoice27?

OneVoice27 é uma iniciativa estratégica lançada durante o Concílio Anual da Associação Geral em 2025, com o propósito de integrar esforços de evangelismo digital e ação local em igrejas e comunidades. Trata-se de uma mobilização mundial para falar de Jesus com uma só voz, sincronizando mensagem, mídia e missão.

O nome “OneVoice” representa a ideia de unidade na missão, convidando cada membro, independente do país ou cultura, a participar ativamente desse movimento. A estratégia pretende que mensagens de esperança, centradas em Cristo e nas profecias bíblicas, sejam compartilhadas ao mesmo tempo em diversos canais e plataformas — redes sociais, rádio, televisão e iniciativas locais.

Por que 2027?

O ano de 2027 foi escolhido por um motivo especial: ele marca o 2.000º aniversário do batismo e unção de Jesus, quando começou Seu ministério público. Essa data é vista pela liderança adventista como um “momento providencial” para colocar novamente o foco no evangelho de Cristo, sua vida, missão, morte e promessa de retorno.

Como a campanha vai funcionar

A proposta é combinar grande alcance digital com engajamento prático nas comunidades locais:

  • Plataformas digitais: conteúdos cristocêntricos que poderão alcançar bilhões de pessoas pelo mundo, transmitindo mensagens bíblicas que falam de esperança, amor e salvação.

  • Rede de comunicação adventista: utilização de canais como rádio, TV e internet para ampliar o alcance das mensagens.

  • Igrejas locais e membros: incentivo para que cada congregação e cada cristão utilize suas redes e oportunidades pessoais para compartilhar sua fé e convidar pessoas ao estudo da Bíblia.

  • Preparação espiritual: ênfase em oração, estudo das profecias de Daniel e Apocalipse e leitura diária de livros espirituais, especialmente O Desejado de Todas as Nações, para manter o foco na vida e missão de Cristo.

Um convite para todos

Os líderes da Igreja Adventista destacam que a missão é de todos — cada membro é chamado a participar. Não se trata apenas de uma campanha publicitária, mas de uma mobilização espiritual e prática, com envolvimento das igrejas e de cada pessoa disposta a compartilhar a mensagem de amor e esperança encontrada em Jesus Cristo. 

Fonte: Noticias Adventistas




O impacto do Cristianismo no mundo Greco-romano

 



A pregação do cristianismo no primeiro século produziu um impacto profundo e inovador no tecido cultural, religioso e social do Império Romano, majoritariamente pagão. Essa inovação não se limitou à esfera ética — embora nela tenha sido notável — mas alcançou também a espiritualidade, o modo de compreender o divino e a própria experiência religiosa. O cristianismo apresentou uma nova visão de mundo que, ao mesmo tempo em que confrontava valores estabelecidos, oferecia sentido, esperança e uma vivência mística capaz de atrair e agregar pessoas de diferentes camadas sociais.

Do ponto de vista ético, a mensagem cristã introduziu uma ruptura significativa com os padrões dominantes. O mundo greco-romano valorizava a honra, a hierarquia, a força e a reciprocidade; a compaixão era frequentemente limitada ao círculo familiar ou cívico. O evangelho, porém, proclamou o amor ao próximo sem distinção, incluindo pobres, estrangeiros, doentes e até inimigos. O altruísmo cristão não era apenas uma virtude filosófica, mas uma exigência prática: cuidar dos necessitados, compartilhar bens, perdoar ofensas e reconhecer a dignidade de todos como criaturas amadas por Deus. Essa ética contracultural produziu comunidades marcadas pela solidariedade e pela hospitalidade, algo profundamente atraente em uma sociedade fragmentada por desigualdades sociais e pela insegurança da vida urbana.

Entretanto, o impacto do cristianismo foi ainda mais radical no campo da espiritualidade. Diferentemente da religiosidade pagã, centrada em ritos públicos, sacrifícios utilitários e na tentativa de apaziguar divindades distantes ou caprichosas, o cristianismo apresentou um Deus pessoal, próximo e interessado na história humana. Esse Deus não era apenas objeto de culto, mas agente de graça: alguém que age, perdoa, transforma e se relaciona com o ser humano. A adoração cristã, muitas vezes realizada em casas e de forma comunitária, enfatizava a oração, a leitura das Escrituras, a partilha do pão e a experiência de comunhão, deslocando o foco do espetáculo ritual para a vivência interior e comunitária da fé.

Nesse contexto, o aspecto místico da mensagem cristã desempenhou papel decisivo. A convicção de que o Espírito Santo atuava dinamicamente na vida dos fiéis — consolando, curando, inspirando e concedendo dons espirituais — conferia à fé cristã um caráter vivo e experiencial. Não se tratava apenas de aderir a uma doutrina moral ou a um novo conjunto de crenças, mas de participar de uma realidade espiritual transformadora. Testemunhos de conversão, coragem diante da perseguição, alegria no sofrimento e experiências espirituais profundas funcionavam como elementos catalisadores para novas adesões à fé.

Assim, a popularização do cristianismo no primeiro século não pode ser explicada apenas por sua ética elevada ou por sua organização comunitária, embora ambas tenham sido fundamentais. O que realmente distinguiu o cristianismo foi a integração entre ética, espiritualidade e experiência mística: uma fé que unia amor prático, nova compreensão do divino e a convicção de uma presença espiritual ativa no mundo. Em meio ao pluralismo religioso e ao vazio espiritual de muitos cultos pagãos, essa proposta ofereceu não apenas respostas intelectuais, mas uma experiência de sentido, pertencimento e transformação pessoal — elementos que explicam sua força expansiva e duradoura na história.


Por que Jesus Precisa Voltar?

 


A esperança da volta de Jesus não nasce apenas do desejo humano por alívio ou justiça, mas, antes de tudo, do cumprimento do propósito eterno de Deus. Desde o princípio, a história da redenção aponta para esse desfecho: Deus intervindo definitivamente para restaurar aquilo que o pecado corrompeu, pôr fim ao mal e estabelecer plenamente o Seu reino de justiça, verdade e amor. Esse é o motivo central, teológico e inegociável: a fidelidade de Deus às Suas promessas.

Entretanto, quando observamos o plano humano, o tempo presente parece dar ainda mais densidade a essa expectativa. Vivemos um momento histórico singular, quase uma encruzilhada civilizatória, em que diferentes frentes da história da humanidade avançam simultaneamente e de forma acelerada. Nunca tantos capítulos decisivos estiveram abertos ao mesmo tempo.

No campo tecnológico, a ascensão vertiginosa da inteligência artificial levanta questões profundas sobre ética, controle, autonomia humana e limites morais. Trata-se de um progresso que, embora promissor em muitos aspectos, também carrega potenciais riscos difíceis de prever e controlar, alterando rapidamente relações de trabalho, comunicação, poder e até a própria compreensão do que significa ser humano.

Na geopolítica, o cenário é igualmente inquietante. Conflitos regionais, alianças instáveis e disputas por poder e recursos alimentam a possibilidade real  e  previsível de uma terceira guerra mundial. O equilíbrio global parece cada vez mais frágil, sustentado por acordos provisórios e interesses imediatos, mais do que por valores duradouros.

Somam-se a isso transformações econômicas gigantescas: crises recorrentes, endividamento global, concentração de riqueza, instabilidade dos sistemas financeiros e mudanças estruturais que afetam bilhões de pessoas. A sensação de insegurança econômica tornou-se quase permanente, corroendo a confiança no futuro.

Esse quadro pode ser ainda agravado pela questão ambiental. Embora existam negacionistas climáticos que minimizem o problema, a realidade mostra que o sistema natural é sensível e pode entrar em colapso de forma repentina. Eventos aleatórios e extremos, como o desprendimento de geleiras colossais, a exemplo da Thwaites, evidenciam que não se trata apenas de debates ideológicos, mas de riscos concretos, com potencial de desencadear efeitos em cadeia sobre oceanos, clima, economia e sobrevivência humana.

Diante de tamanha complexidade, surgem tentativas de soluções políticas e diplomáticas que prometem alívio imediato. Propostas como um suposto “Conselho de Paz”, aventadas por lideranças globais, podem gerar um conforto momentâneo e a sensação de que finalmente se encontrou um caminho para a estabilidade. Contudo, como todo paliativo, tais iniciativas carregam o risco de serem enganosas, produzindo uma tranquilidade artificial, sustentada mais por discursos do que por transformações reais do coração humano.

É nesse contexto que as palavras do apóstolo Paulo ecoam com força renovada: “Quando disserem: Paz e segurança, então lhes sobrevirá repentina destruição” (1 Tessalonicenses 5:3). Não se trata de desprezar esforços humanos por paz, mas de reconhecer seus limites. Sem a restauração profunda que só Deus pode operar, a paz proclamada pode ser apenas aparente, frágil e passageira.

Assim, Jesus precisa voltar não apenas para encerrar um ciclo histórico marcado por crises, mas para cumprir o propósito maior de Deus: julgar o mal, restaurar a criação, consolar os que sofrem e estabelecer uma realidade onde justiça e paz não sejam slogans políticos, mas princípios eternos. A esperança cristã não está em soluções temporárias, mas na certeza de que a história não caminha para o caos definitivo, e sim para o encontro com Aquele que é o Senhor da história.




sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

O espírito da nossa época!

 


Nos dias finais da história humana, os sentimentos, pensamentos e ideias que moldam a mentalidade coletiva revelam um homem cada vez mais centrado em si mesmo. O “eu” tornou-se o eixo da existência: seus desejos, prazeres e ambições ocupam o lugar de valores e princípios mais nobres e sublimes, tais como: Deus, família, comunidade. A sociedade contemporânea é marcada por um caráter profundamente narcisista e hedonista, no qual o valor da vida é medido pela satisfação imediata, pela exaltação da imagem e pela busca incessante do prazer. Nesse cenário, o próximo deixa de ser objeto de amor e passa a ser meio; e Deus, quando não é negado, é reduzido a instrumento para a realização de vontades pessoais.

Esse espírito que domina os últimos dias cumpre com precisão as palavras do apóstolo Paulo, ao descrever homens amantes de si mesmos, mais amigos dos prazeres do que amigos de Deus, com aparência de piedade, mas negando o seu poder (II Timóteo 3:1-5). Trata-se de uma geração saturada de informações, mas faminta de verdade; cheia de estímulos, porém vazia de sentido. O pecado já não causa espanto, e a vaidade do mundo, com seus vícios e idolatrias modernas, tornou-se não apenas comum, mas desejável. Sempre foi assim em certa medida, mas no tempo final esse fator se intensifica e se consolida como uma das maiores causas da rejeição da salvação e da permanência deliberada na vida de pecado.

Diante desse quadro, a exortação apostólica ecoa com urgência: buscar as “coisas do alto”, onde Cristo vive, e não as que são da terra (Colessenses 3:1-2). É um chamado à contramão da cultura dominante, um convite à formação de um caráter moldado pelo Espírito e não pelos impulsos. Fortalecer-se no espírito, perseverar na fé e viver como servo fiel tornam-se atos de resistência santa em meio a um mundo que celebra a autossuficiência e despreza a submissão a Deus.

Por isso, a mensagem final para este tempo não é de acomodação, mas de alerta e misericórdia: “Temei a Deus e dai-Lhe glória, porque vinda é a hora do Seu juízo”(Apoc. 14:7). Esse anúncio solene representa o último chamado divino à consciência humana, a derradeira oportunidade de arrependimento antes da volta de Jesus. Não é uma mensagem de condenação, mas de graça; não de medo, mas de esperança. É o apelo final para que pecadores abandonem as vaidades passageiras e se voltem ao Deus eterno, escolhendo a vida, antes que a história chegue ao seu desfecho definitivo.