A obra clássica O Peregrino, de John Bunyan, atravessa os séculos como um espelho espiritual no qual cada cristão pode se enxergar. Nela, o personagem principal, chamado Cristão, representa todo aquele que, em algum momento da vida, desperta para a realidade do pecado, da salvação e da necessidade urgente de caminhar em direção ao Reino de Deus. Esse despertar não é confortável, nem simples — é profundo, inquietante e transformador.
Cristão vive inicialmente na “Cidade da Destruição”, símbolo de um mundo afastado de Deus, guiado por valores contrários à verdade divina. Ao perceber o peso que carrega nas costas — imagem clara da culpa e do pecado — ele entende que não pode continuar vivendo como antes. Esse é o ponto crucial do despertar: quando o indivíduo reconhece que a vida que levava, embora aparentemente normal ou aceitável, o conduz à perdição. Assim como Cristão, o cristão dos nossos dias vive cercado por distrações, prazeres imediatos, relativização do pecado e ideologias que negam ou distorcem a verdade bíblica. O mundo moderno, com sua velocidade, entretenimento constante e falsas promessas de felicidade, muitas vezes anestesia a consciência espiritual e tira o foco da realidade celestial.
A decisão de Cristão de abandonar a antiga vida e iniciar sua peregrinação espiritual representa uma ruptura necessária. Seguir a Cristo nunca foi um caminho de comodidade. Pelo contrário, é um percurso marcado por renúncia, escolhas difíceis e oposição. Ao longo da jornada, Cristão enfrenta pântanos, vales sombrios, prisões e inimigos disfarçados de amigos. Essas armadilhas simbolizam os desafios enfrentados pelo cristão hoje: falsos mestres que pregam um evangelho diluído, ideologias que exaltam o “eu” acima de Deus, credos e doutrinas que parecem atraentes, mas que desviam da verdade das Escrituras. São instrumentos sutis que, se não discernidos, conduzem à perdição.
Uma das grandes lições do percurso de Cristão é que o perigo nem sempre se apresenta de forma evidente. Muitas ciladas surgem como atalhos, soluções rápidas ou discursos aparentemente piedosos. Bunyan mostra que nem todo caminho que parece mais fácil vem de Deus. Da mesma forma, o cristão contemporâneo precisa exercer vigilância espiritual, examinando tudo à luz da Palavra, e não apenas pelas emoções, tendências culturais ou popularidade de determinadas ideias.
Outro ensinamento fundamental é a perseverança. Cristão tropeça, cai, erra e, em alguns momentos, quase desiste. No entanto, ele se levanta, se arrepende e continua caminhando. Isso revela que a vida cristã não é marcada pela perfeição, mas pela constância. Permanecer firme até o fim exige dependência de Deus, comunhão, oração e fidelidade à verdade, mesmo quando o caminho é solitário ou doloroso.
Por fim, O Peregrino nos lembra que o destino final vale cada sacrifício. Cristão não perde de vista a Cidade Celestial, e é essa esperança que o sustenta. Em um mundo cada vez mais avesso aos valores do Reino de Deus, o despertar do peregrino hoje passa por recuperar essa visão eterna. Manter os olhos no que é eterno, resistir às distrações passageiras e permanecer fiel, mesmo diante das armadilhas do caminho, é o chamado de todo cristão que decidiu despertar e peregrinar até o fim.







