O relato do endemoninhado gadareno (Marcos 5:1-20; Mateus 8:28-34; Lucas 8:26-39) revela não apenas um milagre extraordinário, mas sobretudo a maneira como Deus avalia o valor de uma única alma.
Há histórias na Bíblia que parecem simples narrativas de milagres, mas que, quando contempladas com atenção, revelam o próprio coração de Deus. A cura do endemoninhado gadareno é uma delas.
Jesus acabara de atravessar o mar da Galileia enfrentando uma violenta tempestade. Depois de acalmar os ventos e as ondas, desembarcou na região dos gadarenos (ou gerasenos), localizada na margem oriental do lago. Aquela era uma região predominantemente gentílica, fortemente influenciada pela cultura grega e romana. A presença de uma grande criação de porcos – animais considerados impuros para os judeus – demonstra que não se tratava do ambiente habitual do ministério de Jesus. Enquanto a maior parte de Sua atuação ocorria entre as cidades da Galileia e da Judeia, ali Ele pisaria em território culturalmente distinto, onde Sua mensagem encontraria pouca receptividade imediata.
Surge então uma pergunta inevitável: por que Jesus foi até ali?
Se Seu objetivo fosse apenas estabelecer um núcleo missionário naquela região, talvez houvesse caminhos aparentemente mais eficientes. Poderia começar pelas autoridades locais, pelas famílias influentes ou pelas pessoas mais abertas ao diálogo. Em vez disso, o primeiro encontro de Jesus foi com alguém que, aos olhos humanos, representava o caso mais desesperador possível.
O homem vivia entre os sepulcros. Era dominado por uma legião de demônios. Andava nu, isolado da sociedade, ferindo o próprio corpo com pedras. As correntes não conseguiam detê-lo. Sua mente estava devastada, sua dignidade parecia completamente perdida, e todos já haviam desistido dele. Não possuía família, posição social, prestígio nem qualquer utilidade aparente. Era um homem vivo, mas cuja existência se confundia com a morte.
No entanto, para Jesus, aquele homem continuava sendo uma pessoa.
É difícil imaginar contraste maior entre a avaliação dos homens e a avaliação de Deus. A sociedade enxergava um perigo; Cristo enxergava um filho aprisionado. Os moradores viam alguém irrecuperável; Jesus via alguém que ainda podia ser restaurado. O mundo enxergava um caso perdido; o Salvador contemplava uma alma cujo valor permanecia infinito.
Alguns poderiam sugerir que Jesus escolheu justamente aquele homem porque sua cura produziria um impacto missionário muito maior na região. De fato, isso acabou acontecendo. Depois de restaurado, o antigo endemoninhado tornou-se um poderoso testemunho do poder de Cristo, preparando o caminho para que, mais tarde, muitas pessoas daquela região estivessem mais receptivas ao evangelho.
Essa possibilidade possui fundamento. Deus frequentemente transforma os maiores testemunhos nas maiores demonstrações de Sua graça.
Entretanto, essa não parece ser a principal razão do relato bíblico.
Se o objetivo imediato fosse apenas estratégico, o resultado inicial foi, humanamente falando, um fracasso. A perda da manada de porcos provocou indignação econômica. Os criadores ficaram revoltados. Os moradores, em vez de celebrarem o milagre, suplicaram que Jesus fosse embora. O Salvador foi rejeitado justamente após realizar uma das mais extraordinárias libertações registradas nos Evangelhos.
A missão aparentemente trouxe mais oposição do que aceitação.
Mas, mesmo assim, Jesus havia alcançado Seu propósito.
Porque Seu objetivo principal não era salvar uma economia, conquistar popularidade nem obter aprovação da multidão. Seu objetivo era salvar um homem.
Toda aquela travessia, toda aquela tempestade e toda aquela viagem pareciam justificadas por uma única vida.
É impossível não recordar a declaração do próprio Cristo: "Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido" (Lucas 19:10).
Essa história revela uma verdade extraordinária: Deus não mede o valor das pessoas pelas condições em que elas se encontram.
Nós frequentemente classificamos pessoas por sua aparência, posição social, influência, saúde mental, passado ou utilidade. Deus olha para algo muito mais profundo: Sua própria imagem, ainda que deformada pelo pecado, presente em cada ser humano.
Mesmo quando o pecado obscurece quase completamente essa imagem, o amor de Deus continua enxergando aquilo que o ser humano foi criado para ser.
Por isso Cristo atravessou fronteiras culturais.
Por isso entrou em território considerado impuro.
Por isso enfrentou uma tempestade.
Por isso aproximou-Se de alguém diante de quem todos recuavam.
Porque aquele homem valia a travessia.
Talvez essa seja uma das maiores revelações do amor divino. Deus não ama as pessoas porque elas são úteis, promissoras ou moralmente admiráveis. Ele as ama porque são Suas criaturas, únicas, irrepetíveis, portadoras de um valor que não diminui nem mesmo quando o pecado as reduz à condição mais miserável.
Cada pessoa possui um valor que não pode ser medido pelas circunstâncias.
Cada ser humano é insubstituível diante de Deus.
Foi exatamente isso que Jesus demonstrou naquele dia.
Enquanto os moradores lamentavam a perda dos porcos, Cristo celebrava a recuperação de um homem.
A economia havia perdido animais; o céu havia recuperado um filho.
Talvez esse seja o maior contraste da narrativa. Os habitantes da região calcularam prejuízos materiais; Jesus contemplou o valor eterno de uma alma.
Ainda hoje o Senhor continua atravessando mares para encontrar homens e mulheres presos por correntes invisíveis: vícios, culpas, traumas, pecados, medos e desesperança. Aos olhos do mundo, muitos parecem casos perdidos. Aos olhos de Cristo, continuam sendo pessoas pelas quais vale a pena enfrentar qualquer tempestade.
A cruz confirma essa mesma verdade em sua expressão máxima. Ali Deus declarou definitivamente quanto vale um ser humano. Não pelo que realiza, não pelo que possui, nem pelo estado em que se encontra, mas porque é objeto de Seu amor infinito.
O endemoninhado gadareno jamais poderia dizer que encontrou Jesus por acaso.
Na realidade, foi Jesus quem atravessou o mar para encontrá-lo.
E essa continua sendo a história da salvação de cada um de nós. Antes que buscássemos a Deus, Ele já havia decidido fazer a travessia em nossa direção.

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