Vivemos uma época em que muitos cristãos se sentem desencorajados com a igreja. Jesus advertiu que, nos últimos dias, "por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará" (Mateus 24:12). A frieza espiritual, os conflitos, os escândalos, a superficialidade religiosa e o individualismo crescente têm levado alguns a questionar se vale a pena continuar participando da comunidade cristã.
Essa não é uma pergunta nova. O escritor cristão Philip Yancey, em seu livro Sou Cristão Apesar da Igreja (Soul Survivor) e também em Church: Why Bother? ("Igreja: Por que se Importar?"), relata suas profundas decepções com o ambiente religioso de sua juventude. Ainda assim, depois de anos de reflexão, concluiu que abandonar a igreja não era a solução. Para ele, o problema não estava no evangelho de Cristo, mas nas imperfeições humanas daqueles que tentam vivê-lo. Yancey reconhece que a igreja possui falhas, porém continua sendo o principal instrumento escolhido por Deus para manifestar Sua graça ao mundo.
1. Lembrar que a Igreja é de Cristo, não dos homens
Muitos abandonam a igreja porque depositaram sua confiança em líderes, instituições ou membros. Quando essas pessoas falham, a decepção é inevitável. Entretanto, a Bíblia ensina que a igreja pertence a Cristo.
Jesus declarou: "Edificarei a minha igreja" (Mateus 16:18).
A igreja visível sempre será composta por pessoas imperfeitas. Os discípulos discutiam sobre quem era o maior; Pedro negou Jesus; Tomé duvidou; e as igrejas apostólicas enfrentaram divisões, heresias e conflitos. Ainda assim, Cristo não desistiu delas.
Philip Yancey observa que a igreja pode frustrar, mas também pode abençoar profundamente, porque Deus escolheu agir por meio de pessoas comuns e imperfeitas.
2. Separar Cristo das falhas dos cristãos
Uma das maiores armadilhas espirituais é julgar Cristo pelos erros de Seus seguidores. A igreja pode decepcionar; Cristo jamais.
C. S. Lewis escreveu:
"A igreja é uma sociedade de pecadores arrependidos."
Esperar perfeição da igreja é esquecer quem somos. A igreja não é um museu de santos, mas um hospital para pecadores. Quando compreendemos isso, deixamos de exigir dos irmãos aquilo que somente Deus pode oferecer.
3. Cultivar relacionamentos e não apenas frequência
Muitos frequentam cultos por anos sem desenvolver amizades espirituais significativas. Quando surge uma crise, sentem-se sozinhos e acabam se afastando.
O livro de Atos descreve uma comunidade que perseverava "na comunhão" (Atos 2:42). A força da igreja não está apenas no púlpito, mas nos relacionamentos construídos em torno de Cristo.
Yancey enfatiza que a igreja é, acima de tudo, uma comunidade onde pessoas diferentes aprendem a viver juntas, servindo e sendo transformadas mutuamente.
4. Entender que a fé não foi projetada para ser vivida sozinho
Em nossa cultura individualista, muitos acreditam que podem seguir a Deus sem participar de uma igreja local. Porém o Novo Testamento descreve os cristãos como membros de um corpo.
Philip Yancey cita a ideia de que a fé cristã vem acompanhada de um aviso: "Não tente praticá-la sozinho". Ele recorda uma frase atribuída a João da Cruz: "A brasa isolada esfria; junto às demais permanece acesa."
O isolamento espiritual costuma produzir esfriamento gradual. Já a comunhão proporciona encorajamento, correção, equilíbrio e crescimento.
5. Concentrar-se na missão, não nos problemas
As igrejas que mais sofrem com conflitos internos geralmente perderam de vista sua missão. Quando os cristãos se envolvem na evangelização, no discipulado, no serviço aos necessitados e na proclamação do evangelho, muitas diferenças secundárias perdem importância.
Eugene Peterson escreveu:
"A igreja é a comunidade onde Cristo está formando pessoas."
Quando passamos a servir, descobrimos que Deus continua operando apesar das limitações humanas.
6. Alimentar a chama espiritual diariamente
Nenhuma igreja consegue substituir a vida devocional pessoal. O crente que depende exclusivamente dos cultos para sua nutrição espiritual inevitavelmente enfraquecerá.
A permanência na igreja exige:
- oração constante;
- estudo diário das Escrituras;
- comunhão pessoal com Deus;
- testemunho ativo da fé;
- participação no serviço cristão.
O fervor coletivo quase sempre é consequência do fervor individual.
7. Olhar para o que Deus está fazendo, não apenas para o que está errado
É fácil enxergar apenas os defeitos. Mais difícil é perceber as evidências da graça de Deus.
Apesar de todos os problemas da história cristã, a igreja continua pregando o evangelho, sustentando missões, socorrendo necessitados, formando discípulos e anunciando a esperança da volta de Cristo. Philip Yancey argumenta que não devemos ignorar os erros da igreja, mas também não devemos ignorar seus incontáveis frutos de amor, serviço e transformação.
Conclusão
Permanecer na igreja nos últimos dias não será fácil. O amor esfriará, a fé de muitos enfraquecerá e haverá motivos de sobra para o desânimo. Contudo, a solução bíblica nunca foi abandonar a comunidade dos crentes, mas contribuir para sua renovação.
A igreja não é perfeita. Nunca foi. Entretanto, continua sendo o corpo de Cristo na Terra, o lugar onde Deus reúne pessoas imperfeitas para adorá-Lo, servi-Lo e preparar-se para Seu reino eterno.
Talvez a pergunta mais importante não seja: "Por que permanecer na igreja?", mas: "Onde mais encontraremos uma comunidade reunida em torno de Jesus Cristo?"
Como escreveu Dietrich Bonhoeffer:
"A igreja não é um ideal que devemos realizar; é uma realidade criada por Deus em Cristo."
Por isso, mesmo em tempos de frieza espiritual, o chamado do cristão permanece o mesmo: perseverar, amar, servir e manter os olhos fixos em Cristo, o verdadeiro Cabeça da igreja.
