Amar como Deus ama talvez seja uma das maiores dificuldades da experiência humana e também uma das maiores evidências da distância existente entre a natureza divina e a natureza caída do homem. É relativamente fácil amar quando somos compreendidos, valorizados ou correspondidos. O desafio começa quando o amor precisa sobreviver à decepção, à injustiça, às diferenças e às feridas produzidas pelos relacionamentos.
O ser humano consegue manifestar um amor imperfeito, limitado pelas emoções, pelas memórias e pelas interpretações que faz das atitudes dos outros. Muitas vezes tentamos equilibrar duas necessidades difíceis de conciliar: amar desinteressadamente e, ao mesmo tempo, corrigir, reprovar ou se posicionar diante do erro. Nem sempre sabemos como separar a pessoa daquilo que ela fez. E quando não conseguimos, sentimentos como raiva, ressentimento, mágoa e indignação acabam contaminando nossa percepção. A partir disso, deixamos de enxergar o outro como semelhante, como criatura de Deus, e passamos a vê-lo apenas através da dor que ele possa causar.
Entretanto, o amor divino possui uma profundidade diferente. Deus corrige sem deixar de amar. Reprova o pecado sem abandonar o pecador. Sua justiça não elimina Sua misericórdia, e Sua misericórdia não anula Sua verdade. Em nós, muitas vezes, a correção vem carregada de orgulho, irritação ou desejo de superioridade. Em Deus, ela nasce de um amor perfeitamente puro.
Talvez uma das coisas mais difíceis para o coração humano seja compreender que Deus ama até mesmo aqueles que consideramos inconvenientes, ofensivos, moralmente distantes ou incompatíveis com nossa visão de mundo. Jesus revelou isso de maneira impressionante ao ensinar:
“Amai os vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem.” (Mateus 5:44)
Esse ensino não significa aprovar o mal, ignorar a verdade ou abandonar o discernimento. Significa não permitir que o ódio ocupe o lugar do amor dentro de nós. Significa não alimentar vingança, revanchismo ou prazer na queda do outro. É desejar que até mesmo quem nos feriu possa encontrar transformação, graça e redenção diante de Deus.
Jesus viveu exatamente aquilo que ensinou. Na cruz, cercado por injustiça, violência e humilhação, ainda orou:
“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” (Lucas 23:34)
Há algo profundamente sobrenatural nisso. O homem natural dificilmente ora por quem o machuca. O impulso humano tende à defesa, ao afastamento e, muitas vezes, ao desejo silencioso de compensação emocional. Por isso amar como Cristo amou não é apenas uma virtude moral; é uma transformação espiritual. É a restauração gradual da imagem de Deus no ser humano.
O apóstolo Paulo descreve o amor verdadeiro de maneira elevada demais para nossas forças naturais:
“O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece… não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal.” (I Corintios 13)
Ao ler essas palavras, talvez percebamos o quanto ainda estamos distantes desse ideal. Mas também entendemos que amar assim não nasce apenas do esforço humano. Surge da convivência com Deus. Quanto mais contemplamos o caráter de Cristo, mais percebemos nossas limitações e mais necessitamos da ação do Espírito Santo moldando nossos sentimentos, reações e intenções.
Talvez a verdadeira maturidade espiritual não esteja apenas em conhecer doutrinas ou defender convicções corretas, mas em aprender a olhar para as pessoas com os olhos da compaixão divina. Não uma compaixão ingênua, que ignora a verdade, mas uma compaixão capaz de reconhecer que cada ser humano carrega dores, conflitos, pecados e fragilidades que somente Deus conhece plenamente.
Amar como Deus ama é difícil porque exige morrer para o ego. Exige abrir mão da necessidade de vencer disputas emocionais. Exige permitir que a graça seja maior do que o orgulho ferido. E isso não acontece instantaneamente; é um aprendizado diário.
Talvez por isso a oração mais sincera não seja pedir apenas mais conhecimento, mais força ou mais razão, mas pedir um coração semelhante ao de Cristo:
“Senhor, me dê a sensibilidade para amar e a expressão para manifestar este amor. Só assim serei semelhante ao Teu Filho – um pouco mais da Tua imagem.”

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